18.11.06

O Major Galopante!

A morte conseguiu passar por ele. Agora, o artilheiro fará alguns de seus belos gols pelos céus. O mundo do futebol perdeu mais um grande craque do passado. Férenc Puskas morreu em decorrência de complicações do Mal de Alzheimer que o acometia.

Seu porte físico, baixo e gordo, não intimidava os zagueiros. Mas o “esquerda de ouro” deixava-os para trás e desandava a fazer gols. É um dos símbolos do fantástico time que a Hungria montou na década de 50. Vamos saber um pouco mais da vida desse artilheiro, que detém marcas impressionantes e está no hall dos melhores jogadores de todos os tempos.

A Carreira no Honved

Nascido a dois de abril de 1927, em Budapeste, Hungria, foi batizado pelos pais como Ferenc Purczeld. Começou a jogar, ainda garoto, pelo Kispesti, de Budapeste. Curiosamente, jogou até os 12 anos como Miklós Kovács, para poder atuar no time sem problemas de idade. Treinado pelo seu pai, o jovem Puskas (nome que o atacante adotou que significa atirador, em húngaro) já era titular absoluto da equipe aos 16 anos e capitão aos 19. E não demoraria para ele estrear pela seleção. Aos 18 anos, ele já vestia as cores da seleção húngara, contra a Áustria. Era a primeira de uma série de 85 partidas pelos Magiares, como era conhecida a seleção. Era também a primeira partida da seleção húngara logo após o caos da Segunda Guerra Mundial.

Em 1948, o Kispesti foi nomeado pelo governo húngaro como o time do exército e passou a se chamar Honved. Puskas tornou-se Major do exército. Daí o seu apelido mais famoso “O Major Galopante”. O Honved (foto), que depois convocaria para suas fileiras jogadores como Zoltan Czibor e Sandor Kocsis, venceu a Liga Húngara por cinco vezes e Puskas foi artilheiro dela em quatro oportunidades: 1947/48 (50 gols), 1949/50 (31 gols), 1950 (27 gols) e 1953 (25 gols).


Os Magiares Mágicos

Após sua estréia contra a Áustria, Puskas ajudaria a fazer da seleção húngara uma das mais fortes e fantásticas de todos os tempos. Ao lado de seus companheiros de Honved (Czibor e Kocsis) e outros fabulosos jogadores húngaros da época, como József Bozsik e Nándor Hidegkuti, formou a base dos Magiares Mágicos, que mantém até hoje a impressionante marca de 32 partidas consecutivas sem derrota.
A Hungria conquistou a medalha de Ouro nas Olimpíadas de 1952, em Helsinque, Finlândia. Na final, os Magiares Mágicos bateram a Iugoslávia por 2 a 0, com o gol inicial da partida marcado por Puskas, que já havia marcado outros três gols naquele torneio olímpico.

Dois jogos em particular, dessa fase de ouro da Hungria, chamam a atenção. Em 1953, a seleção húngara venceu a Inglaterra (foto), em Wembley, por 6 a 3. Era a primeira vitória de uma seleção não-britânica dentro de Wembley sobre o English Team. E em 1954, antes da Copa, os Magiares repetiram a dose: venceram, desta vez em Budapeste, por impressionantes 7 a 1.
E com o futebol vistoso, coletivo, de toques rápidos e mortais, com Puskas como o atacante cerebral da equipe e Hidegkuti como o centro-avante de ofício, a Hungria chegou como favorita para a Copa da Suíça, em 1954. Começou massacrando a Coréia do Sul por 9 a 0, em Zurique, com dois gols de Puskás. Na partida seguinte, vitória incontestável sobre a Alemanha Ocidental por 8 a 3. Apesar de marcar um gol na partida, o jogo custaria caro a Puskás: ele machucou o tornozelo em disputa com o alemão Werder Liebrich e ficou de molho até as finais do torneio. Nas quartas-de-final, a Hungria jogou contra o Brasil, ainda estigmatizado pelo fracasso de 1950. A “Batalha de Berna”, como ficou conhecida a partida, foi vencida pelos húngaros por 4 a 2, resultado que se repetiu nas semi-finais, contra os campeões de 1950, os uruguaios.

Mesmo não estando 100%, Puskas não queria perder aquela final de Copa contra a Alemanha Ocidental (foto), partida que seria a partida mais importante de sua carreira. E jogou baleado. Mesmo assim, marcou logo aos seis minutos. Aos dez, a Hungria já vencia por 2 a 0. Mas os alemães, que haviam perdido para os magiares na primeira fase, conseguiram virar a partida faltando seis minutos para o fim. Era a primeira derrota dos Magiares em quatro anos. A derrota mais dolorida na carreira de Puskas. Foram 85 partidas e impressionantes 84 gols pela seleção, dando a ele uma média de quase um gol por partida.

Cavalgando em Madrid

A ocupação soviética na Hungria, em 1956, desfez a equipe do Honved. Os jogadores da antiga equipe, base da seleção húngara, fugiram para diversos lugares da Europa Ocidental. Puskas adotou a Espanha como lar. Por conta de uma suspensão imposta pela FIFA, Puskás ficou sem jogar durante dois anos. Atuou em alguns jogos não-oficiais pelo Espanyol, de Barcelona. Gordo e fora de forma, foi levado em 1958 ao Real Madrid . Para muitos, uma contratação sem sentido, pois imaginavam sua fase áurea já havia passado.
No Real, aos 31 anos, formou um dos melhores esquadrões de todos os tempos, ao lado de jogadores como Alfredo Di Stéfano e Francisco Gento. Juntos, levaram o time merengue a conquista de cinco Ligas Espanholas e três Copa dos Campeões. E o jogo mais marcante de Puskas pelo Real foi exatamente a final da Copa dos Campeões de 1960 (foto), disputada em Glasgow, Escócia. Foram massacrantes 7 a 3 sobre o Eintracht Frankfurt, com quatro gols do matador húngaro. Foi artilheiro da Copa dos Campeões (1960 e 64) e da Liga Espanhola (1960, 61, 63 e 64).
Jogaria ainda pela seleção espanhola, na Copa de 1962, no Chile e encerraria sua carreira no próprio Real Madrid, aos 40 anos. Segundo a Federação Internacional de História e Estatística (IFFHS), Ferenc Puskas foi o terceiro maior goleador de todos os tempos. Cálculos oficiais da entidade mostram que Puskas teria marcado 511 gols em 533 jogos.

Como treinador, Puskas não obteve o sucesso da época de jogador. Sua melhor performance como treinador foi a frente do Panathinaikos, da Grécia, quando alcançou a final da Copa dos Campeões de 1970/71. O Panathianikos caiu frente ao Ájax de Neeskens e Cruyff, por 2 a 0. Retornaria a sua terra natal para assumir o cargo de técnico da Hungria, em 1993.

Acometido pelo Mal de Alzheimer, diagnosticado em 2000, Puskas é reconhecido como o maior esportista húngaro do século 20. O antigo Nepstadion, onde a seleção manda seus jogos, foi renomeado como Estádio Ferenc Puskas. As homenagens se seguiam. O Honved aposentou a lendária camisa 10, que Puskás envergou por tantos anos. O Real Madrid organizou um jogo-homenagem , em agosto de 2005, contra um combinado húngaro. A renda seria revertida ao ex-jogador, que passava dificuldades financeiras na época. Também publicou uma auto-biografia, escrita por um jornalista húngaro.

A Hungria de Puskas e cia. nunca mais foi a mesma após a Copa de 54. Mas Puskas, com certeza, escreveu seu nome na história através de seus potentes chutes de esquerda e suas jogadas cerebrais. Mais do que um jogador, Puskas representou para muitos uma geração inteira, antes do surgimento de Pelé. Uma época do futebol altamente ofensivo, de muitos gols e muito romantismo. Afirmava que seu maior amuleto era a bola. Seu amor pelo futebol e pela Hungria eram latentes e convertidos em muitos gols. Os amantes do futebol batem continência para o Major Ferenc Puskas!

No vídeo abaixo, gol de Puskas na célebre vitória de 6 a 3 sobre a Inglaterra, em 1953.


Perfil

Nome Completo: Ferenc Purczeld
Nascimento: 2 de abril de 1927, em Budapeste, Hungria
Falecimento: 17 de novembro de 2006
Apelidos: Major Galopante, Öcsi (irmão mais novo, em húngaro)
Clubes: Kispesti/Honved (1943-1956) e Real Madrid (1958-1966)
Títulos: 5 Ligas Húngaras
5 Ligas Espanholas
Campeão Olímpico
3 Copas dos Campeões
1 Mundial Interclubes

Um comentário:

Felipe Leonardo disse...

Bela reportagem André!
O que Puskas representa para a Hungria é algo inexplicável. Realmente, o que ele fez no gramados europeus foi algo fenomenal e nunca será esquecido. Não só pelos gols e pelo títulos conquistados, mas pela representatividade que esse gênio deu a Hungria no futebol mundial, eu o considero, ao lado de Cruyff, o melhor jogador europeu do século XX.

Um Abraço, Felipe Leonardo