16.9.11

Cai-cai é cultural

A nova polêmica da vez refere-se à opinião do goleiro Rogério Ceni, do São Paulo, acerca da postura do atacante Neymar, do Santos, diante da marcação (muitas vezes implacável, é verdade) dos defensores do futebol brasileiro. “Garanto que nem 50% das entradas são faltosas, nem 50%. Agora, que ele é o melhor jogador do Brasil não se discute. Mas em 50%, é simulação”, opinou o capitão do Tricolor ao Bem, Amigos, do Sportv. Logo a joia santista respondeu com um texto em seu site oficial, de autoria do jornalista Alex Bernardo, dizendo que é preciso “proteger o talento” e atacando o arqueiro diretamente: “Rogério Ceni é chato pra c******”.

Ao tocar no assunto, Ceni abordou, mesmo que de forma indireta, uma cultura lamentável que está no DNA de boa parte dos atacantes do futebol brasileiro: o cai-cai, que consiste no abandono de chances de criação ou conclusão de jogadas para ludibriar o árbitro em simulações espetaculosas de faltas ou pênaltis. Também indiretamente, boa parte dos torcedores brasileiros não corroboram com tal postura. Prova disso é a idolatria aos jogadores de cultura totalmente oposta ao cai-cai, como argentinos e uruguaios. Craques ou não, torcedores daqui não cansam de exaltar a incansável luta de jogadores como Tevez ou Herrera (exemplos atuais e diametralmente opostos quanto à técnica). Pelo globo, cresce a admiração pelo futebol de jogadores como Rooney, Drogba, Forlán ou Diego Milito, de características semelhantes na luta para balançar as redes.

Com todas as restrições que possam existir sobre a postura de Ceni, trata-se de um jogador diferenciado do estereotipado por aqui, culturalmente e na maneira de se expressar. E especificamente nesse caso, a opinião do veterano não foi pejorativa ao brilhante futebol do santista. Falar em “50%” é algo hipotético, uma figura de linguagem que mostra que muitas das faltas marcadas sobre Neymar não são legítimas. Fato que não encobre, por exemplo, que Neymar foi o grande responsável pela conquista da Libertadores 2011 pelo Santos. Nem que Rogério deu uma opinião equivocada sobre o mesmo Neymar sobre a nefasta paradinha, em fevereiro de 2010, já que o camisa 1 usou deste artifício para marcar alguns dos seus gols de pênalti.

Nenhum jogador, craque ou brucutu, deve ter “atenção especial” da arbitragem. Por ter mais recursos técnicos, o camisa 11 tem maior chance de se livrar dos zagueiros. E também de ser caçado impiedosamente por eles. É onde deveria entrar a arbitragem, punindo quem é passível de punição. E até o polêmico STJD, dependendo da gravidade da infração/agressão que extrapole o aceitável nas quatro linhas.

Muitos comparam Neymar a Messi. Ambos têm talento inegável, já decidiram campeonatos e são estrelas do futebol mundial – o craque do Barcelona, mais velho, tem mais tarimba e está muito à frente do brasileiro, em minha visão. Contudo, a grande diferença entre eles em situações como essa é a cultura futebolística. Com a bola colada no pé e sem medo dos defensores, Messi apanha, mas é difícil de ser derrubado e marca gols antológicos com maior frequência. Neymar, em diversas oportunidades, prefere a segurança do gramado, após um mergulho cinematográfico. Mesmo tendo técnica para criar pérolas tão frequentemente quanto o camisa 10 do Barcelona e da Argentina.

E o destino inevitável da carreira de Neymar, o futebol europeu, já está de olho não só em sua técnica inegável, mas também da capacidade “cênica” do prodígio brasileiro, como mostra o jornalista Mauro Cezar Pereira em seu texto sobre o assunto, em seu blog na ESPN. E lá não é como cá, já que os europeus prezam mais o jogo limpo (ao menos nesse caso), condenando o cai-cai, este produto no qual o futebol brasileiro é especialista em produzir. Com tanta criatividade quanto belas jogadas e um gol de prata, infelizmente.

13.9.11

Erick Torres: o sucessor de Chicharito

*Texto redigido originalmente para a seção Fique de Olho, do Olheiros

“Jovem atacante do Chivas e das seleções mexicanas de base é cobiçado pelo Manchester United”. Se a notícia não fosse dada pela imprensa inglesa em junho de 2011, certamente o leitor teria pensado no nome de Javier “Chicharito” Hernández, que brilhou na última temporada europeia pelos Red Devils, com 21 gols em 28 jogos. Porém, certamente, o nome em questão pode ser considerado o seu sucessor: o atacante Erick “El Cubo” Torres, 18 anos. E assim como o camisa 14, construiu toda a carreira no Chivas Guadalajara, sendo alçado muito jovem ao time profissional.

Além do interesse recente do mesmo time do compatriota, ele usa a camisa 15 no Chivas (Chicharito sempre usou a conhecida 14). Mas ascendeu ao time profissional muito mais rápido que Hernández, que demorou quase três temporadas para se firmar, deixando uma lacuna no ataque da equipe ao partir para a Inglaterra após a Copa do Mundo da África do Sul. A falta de gols da equipe e as circunstâncias acabaram colocando-o como substituto de Chicharito no Chivas. Uma responsabilidade bem cumprida, até aqui, pelo jovem talento – que também esteve no grupo de El Tri que conseguiu ótimo terceiro lugar no último Mundial sub-20, disputado na Colômbia.

Filho de Guadalajara

Outro ponto que remete à comparação entre Hernández e Torres é o fato de ambos serem crias do Chivas e oriundos de Guadalajara. Erick chegou ao clube muito cedo, com apenas 8 anos de idade. Pouco tempo depois, ganharia o apelido que carrega até hoje, fruto das brincadeiras dos garotos do elenco. Por causa de um corte de cabelo, aliado ao formato natural da cabeça de Erick, “El Cubo” acabou virando uma espécie de marca registrada do atacante.

Com um faro de gol apurado, pavimentou rapidamente seu caminho nas categorias de base da equipe mexicana. Apesar dos números não serem totalmente precisos, estima-se que o matador balançou as redes por 51 vezes em 75 jogos pela equipe sub-17, segundo levantamento da imprensa do país. Dado o histórico de Torres, não é de se duvidar, já que ele atuou nesta categoria desde os 15 anos de idade.

Já como capitão do Chivas sub-17, se destacou no vice-campeonato do Torneio Bicentenário de 2010, disputado no México. Apesar de batido pelo São Paulo de Lucas Piazón por 4 a 2, El Cubo marcou os dois gols mexicanos. A performance no título do Torneio Apertura da categoria foi premiada em 23 de novembro de 2010, quando fez seu debute pela equipe principal aos 17 anos, ao entrar no minuto 77 contra o Monterrey, na última partida da temporada regular.

“Este é o dia com o qual sonhei 17 anos da minha vida. Eu esperava e sonhava muitas noites, pensando em dias de treinos em que levantei cedo e que basearam-se nesses 15 minutos da minha vida, na estreia no time principal”, analisou o jovem ao site mexicano Medio Tempo. Mal sabia que este seria apenas o início de fortes emoções e da evolução que viria na temporada seguinte.

Um 2011 meteórico

José Luis Real vivia um dilema, depois de duas rodadas de desempenho pífio do ataque do Rebanho Sagrado (como é conhecido o Chivas) – de jogadores conhecidos no país como Alberto Medina, Omar Arellano e o experiente Adolfo Bautista. Por isso, o técnico promoveu de vez “El Cubo” ao time principal, surpreendendo a todos, já que o também atacante Michel Vázquez, nascido em 1990, era a opção natural para ser utilizado. E aproveitando a lesão de Bautista, Torres foi titular na partida contra o San Luís, pelo Clausura. E não decepcionou, ao marcar seu primeiro gol como profissional, no empate por 1 a 1, no Estádio Omnilife, casa do Chivas.

A confiança logo o alçou à vaga permanente no ataque. No total, marcou seis gols nas 19 partidas disputadas no torneio nacional. Entre eles, o gol no clássico de Guadalajara contra o Atlas. Na comemoração, acabou expulso por ter feito um gesto provocativo para os barrabravas adversários. O desempenho meteórico o fez treinar com o elenco mexicano, formado basicamente por jogadores sub-23, que iria representar o país na Copa América, disputada na Argentina. Porém, acabou dispensado para poder reforçar El Tri na Copa do Mundo sub-20, na Colômbia, onde usou a camisa 10.

Começou a competição como reserva, mas participou das sete partidas do México no torneio (quatro delas, como titular). Na principal delas, marcou o pênalti que abriu caminho na vitória diante dos donos da casa, nas quartas de final, por 3 a 1. Na semifinal diante do Brasil, Torres foi o mais perigoso dos mexicanos. Após disputa de bola com o goleiro Gabriel, acabou deixando o camisa 1 com um olho roxo. Pouco depois, testaria a bola para as redes, mas em impedimento. Contudo, o Brasil se impôs e acabou vencendo por 2 a 0, no segundo tempo – o México consolidaria o terceiro lugar no torneio com a vitória sobre a França, por 3 a 1.

Mas antes da disputa do Mundial, El Cubo já estava no noticiário da imprensa esportiva europeia. Além do suposto interesse do Manchester United (que ganhou corpo muito pela semelhança com a trajetória de Chicharito), o atacante teria sido oferecido ao trio de ferro do futebol português e ao PSV Eindhoven. Contudo, ele segue em Guadalajara nesta temporada.

Até por seu físico franzino, a comparação com Hernández acaba sendo inevitável. Mais alto que o compatriota (1,81m, contra 1,73m), Torres faz o estilo mais matador, enquanto Chicharito possui um pouco mais de velocidade e técnica. Porém, os mexicanos o descrevem como letal nas redondezas da área, com boa noção de posição e bom arremate de média distância.

A boa safra dos últimos anos no México sugere um bom futuro para Torres. Mas é preciso um pouco de cautela com o garoto, que também pode ter futuro semelhante ao de promessas recentes do país, como Giovani dos Santos ou Carlos Vela, que diferente de Chicharito, não vingaram no futebol inglês. A nova temporada no Chivas pode dar mais “corpo” a ele para, como o camisa 14 do Manchester United, ser a nova sensação do futebol mexicano. E fazer os torcedores do Chivas sonharem com um ataque caseiro em uma futura formação de La Tri.

Ficha técnica

Nome completo: Erick Estéfano Torres Padilla
Data de nascimento: 19/01/1993
Local de nascimento: Guadalajara, México
Clube que defendeu:
Chivas Guadalajara
Seleções de base que defendeu: México sub-17 e sub-20

31.8.11

Nosso menino está crescendo - Ano V

O fim deste mês de agosto também marca o quinto ano de vida do Opinião FC. Que anda um pouco abandonado nos últimos meses, muito por relaxo deste que vos escreve. Porém, a importância deste espaço, para mim, continua a mesma. Tanto pessoalmente, quanto profissionalmente. E sou grato e feliz pelo que o blog pôde me proporcionar em sua trajetória.

Por isso é que ainda há o que se comemorar. Afinal, cinco anos é um tempo considerável de vida para um blog, este meio de comunicação e entretenimento tão difuso pela internet. Muito mais do que quando o Opinião FC nasceu, em agosto de 2006.

Espero que o nosso garoto possa ganhar uma roupa de gala para o seu sexto ano. De acordo com a importância dele.

30.8.11

Contradição espanhola

Todos exaltam o futebol da seleção espanhola, atual campeã do mundo e equipe a ser batida, já que tem sua base mantida e possui vários novos talentos surgindo. Os gastos astronômicos da dupla Barcelona-Real Madrid, que se enfrentaram seis vezes só este ano, torna a rivalidade espanhola o clássico mais badalado do planeta. Ambos encantaram na estreia desta temporada em La Liga, com os merengues massacrando o Zaragoza, fora de casa, por 6 a 0, enquanto o Barcelona, mesmo sem zagueiros de ofício, não tomou conhecimento do bom Villarreal, que apanhou de cinco. Notoriamente, ambos são fortes e são os grandes protagonistas, novamente. Mas os coadjuvantes são cada vez mais coadjuvantes. E estão extremamente inofensivos em 2011/12 – o Submarino Amarillo foi o quarto colocado do último torneio nacional e está na fase principal da Champions League.

Enquanto a estreia de La Liga desta temporada foi adiada porque os jogadores exigiam garantias de pagamento de clubes (alguns, à beira da falência), Real e Barça não economizaram em reforços: segundo o site especializado alemão Transfermarkt, ambos gastaram cerca de € 55 milhões para a vinda de estrelas do quilate de Sánchez, Fàbregas e Fábio Coentrão, por exemplo. Com a exceção do Málaga, turbinado pelo dinheiro árabe (gastou € 58 mi) e do Atlético de Madrid, que fez caixa com as vendas de Sérgio Agüero e David De Gea para o futebol inglês, times tradicionais como o Sevilla (€ 11,3 mi) e Villarreal (€ 9,8 mi) gastaram quantias modestas, dada a força demonstrada por ambos nos últimos anos. O Valencia usou a venda de seu principal jogador, Juan Mata, para o Chelsea, para se reforçar – em 2010/11, já havia ganho uma fortuna com a venda do goleador Villa, para o Barça.

Com a partida de peças importantes de equipes medianas, sem a devida reposição, a situação do último campeonato deve se repetir. Falando apenas dos quatro primeiros e classificados à Champions, a diferença entre o bicampeão Barcelona para o Valencia, terceiro colocado, foi de 25 pontos (96 a 71). O abismo fica maior quando comparamos os culés ao Villarreal, o quatro: 34 pontos. A distância só cresce, considerando que depois de 2007/08, quando o Villarreal foi vice, os grandes rivais espanhóis se revezaram nas duas primeiras posições.

“É uma liga terceiromundista, em que dois clubes subtraem dinheiro da televisão dos demais que competem”, esbravejou o presidente do Sevilla, José Maria Del Nido. Depois da greve de atletas – respaldadas pelos não-atingidos jogadores de Barça e Real, é verdade –, a nova briga é da Liga de Fúbol Profisional (LFP) com as rádios espanholas pelos direitos de transmissão. E Del Nido argumenta, com razão, que não será o repasse dessa verba (irrisória, perto dos direitos de TV) que ajudaria nessa situação. Que é grave, se considerarmos que sete dos 20 clubes não possuem patrocinador master na camiseta – outros quatro possuem patrocínio de órgãos governamentais, que se voltam para o turismo –, fato que também reflete a crisa da própria Espanha, que atravessa crise econômica onde quase 22% dos economicamente ativos estão desempregados.

Ainda uma liga de primeiro escalão, a Liga Espanhola vai tomando o caminho da vizinha Portugal, onde apenas os três grandes têm chances reais de brigar pelo título, enquanto todas as outras equipes correm atrás de migalhas. E para o melhor futebol de seleção do mundo, a médio prazo, a bipolarização latente pode sim ser prejudicial. E à exceção dos clássicos, este promete ser um torneio tão sem atrativos quanto os dos últimos anos. Uma pena, dado que o futebol na Espanha é mais “solto” e menos pegado, quando comparado com o italiano, inglês e o disputadíssimo alemão.

16.8.11

Reforço sentimental

Desejo do Barça e pedido do campeoníssimo Guardiola, Fàbregas vai herdar a 4, com a qual o seu chefe se consagrou como jogador

Quase oito anos após deixar as canteras de La Masia rumo à cinzenta Londres, Cesc Fàbregas faz jus ao ditado popular do “filho pródigo” e volta ao Barcelona da adolescência, que assim como ele, cresceu. A contratação pode ser vista sob um prisma muito particular: apesar das altas cifras envolvidas € 34 milhões (cerca de R$ 78,4 milhões), é uma contratação primordialmente sentimental.

Explico: mesmo sendo um pedido de Pep Guardiola, se observarmos o elenco do Barcelona, Fàbregas não vem como protagonista, como o era no Arsenal. Será uma valiosa opção no já dinâmico meio-campo culé, bombeado principalmente pelos “motores” Iniesta e Xavi. Jogadores como Busquets (cria do próprio Guardiola), Mascherano e Keita fazem o “trabalho sujo”, posto que deve passar a ser ocupado pelo novo reforço, um volante de formação, mas cada vez mais fixo como segundo, terceiro ou quarto homem de meio.

Para Fàbregas, faltou um título em sua carreira clubística como atleta, orquestrada pelo eficiente Arsène Wenger. De atleta mais jovem e a marcar a primeiro gol pelo Arsenal, galgou a tarja de capitão da equipe londrina. Que, pela política no investimento em jovens e a construção do Emirates Stadium, passou a ser um coadjuvante na Inglaterra enquanto Chelsea, Liverpool e Manchester United protagonizavam o título inglês e eram cabeças nas disputas da Champions League. Grandes, os Gunners acabaram ficando pequeno para o camisa 4, que saiu do clube que o revelou para o único clube que ele realmente iria nos seus 24 anos de idade. Que é o dono da Espanha, Europa e do Mundo há dois anos, com um futebol vistoso.

Segundo noticia a imprensa, o espanhol abriu mão de uma porcentagem da transferência que seria paga pelo seu ex-clube, cerca de R$ 9 milhões. Por outro lado, o Barça teria assinado uma cláusula em que prioriza uma futura negociação com o Arsenal e que destina 50% do valor de uma futura venda a um terceiro clube aos ingleses – e dada a duração dessas negociações, não duvido de tal exigência. Na prática: o clube só será beneficiado em campo. Comercialmente falando, mesmo que seja negociado por um valor astronômico, não haverá lucro. Uma aposta com o coração – algo raro, com todo o dinheiro que gira o carrossel do futebol moderno.

Com a chegada do bom chileno Alexis Sánchez, da Udinese (€ 26 milhões de euros), dois dos principais atletas poderão ser mais “poupados” durante esta temporada: Messi e Xavi, protagonistas de Argentina e Espanha. Falta apenas uma retaguarda na zaga, já que o incansável Puyol já não é mais nenhum garoto. Com a contusão do capitão blaugrana no final da última temporada, Mascherano foi deslocado para a zaga. Não comprometeu, mas não foi nenhum fenômeno.

Entrosado e reforçado, é o grande alvo a ser derrubado na Europa, frente a um Real Madrid que ainda tenta ganhar corpo, mas pode rivalizar durante a temporada.

4.8.11

Comemoração media training

Vascaínos comemoram com a dança do João Sorrisão: outra previsibilidade no futebol nacional

No Brasileirão, mais do que nunca, todos estão mais atentos aos gols. Mas a causa não é lá muito nobre, mas sim para ver quem é que será o próximo a fazer a tal da dança do João Sorrisão, campanha/publicidade do Esporte Espetacular, da Rede Globo. Dizer que a emissora mais poderosa do país adota tal prática para fixar sua marca parece meio redundante, já que é dela o domínio das principais transmissões do futebol brasileiro nas últimas décadas.

Para aparecer na Globo, os atletas balançam como joões-bobos. Assim, as comemorações do momento máximo de futebol ficam enlatadas e viram motivos de repetitivas matérias nos programas jornalísticos (ou de entretenimento?) de esporte da emissora. No fundo, isso acaba virando uma troca: os marcadores ganham 15 minutos (segundos) de fama, como um autêntico BBB, e a Globo torna a celebração um produto comercial – disponível em seu site por R$ 49,90.

Por causa da "moda", vi manifestações contra o João Sorrisão em que uns culpam jogadores do passado, como Viola e Paulo Nunes, pelas comemorações irreverentes. Outros, a "modernização do futebol", de chuteiras coloridas e cabelos moicanos em lugar das chuteiras pretas e dos socos no ar. A questão vai além do conservadorismo ou não (é algo que é do gosto de cada um e não dá pra se discutir). Trata-se da emissora começar a pautar um dos aspectos mais espontâneos do esporte bretão: o extravasamento na hora de comemorar. Se o jogador não pode tirar a camisa para comemorar um gol salvador, porque ele pode fazer um movimento que vai levá-lo novamente à TV para dizer "fiz o gol porque meu filho/sobrinho queria o boneco?"

É apenas mais um aspecto da emissora que passou a tratar o esporte quase que somente como entretenimento, em detrimento da parte que realmente deve ser noticiada e discutida, que compreende toda a esfera de bastidores, refletidas em campo. A difícil tarefa de mesclar a veiculação da notícia dessa editoria fora da "seriedade" que requer a economia, por exemplo, faz os programas esportivos da Globo se tornarem supérfluos – alta audiência não atesta, necessariamente, a qualidade. Assim como a tal comemoração manufaturada.

Precisamos de declarações bombásticas de Dadás Maravilha, Vampetas, Romários e Paulos Nunes. Até mesmo da arrogância inesperada de Mourinhos. Se as declarações dos atletas da atualidade – muitos deles já assessorados desde a adolescência – mostram jogadores da geração media training, as comemorações de gol no futebol brasileiro parecem se enveredar pela mesma via, saindo como uma produção em série digna do fordismo.

Pelé ficou eternizado pelo soco no ar; Ronaldo, pelo dedo em riste (que nasceu de uma comemoração comercial, diga-se de passagem); Bebeto, pelo "nana nenem" de 1994. A criatividade premia desde os campeões, como o Santos avassalador, que ganhou quase tudo em 2010/11, até os desconhecidos finlandeses do Stjarnan, que ganharam o mundo em 2010 com coreografias inusitadas. Fico do lado do inesperado, assim como o brasileiro Marcello Matrone, atacante do HIK da Finlândia (abaixo).


28.7.11

Malos Aires

Cristina Kirchner e Júlio Grondona: a mistura explícita e explosiva de interesses particulares políticos e do futebol


Se o dia 26 de junho de 2011 foi o mais triste da história do River Plate, um mês depois o futebol argentino escancarava o "jeitinho brasileiro" para fazer de tudo e devolver o maior campeão do país à elite: a AFA, do interminável Júlio Grondona e o governo da presidente Cristina Kirchner deram o pontapé inicial na articulação que, para evitar novas quedas e catapultar o River à primeirona, vai ter 38 clubes em sua primeira divisão a partir da próxima temporada, em 2012/13.

Na proposta de fusão da Primera División com a B Nacional, que deverá ser referendada em outubro, os clubes seriam divididos em dois grupos de 19. Os cinco primeiros de cada grupo, mais os nove melhores na pontuação geral, disputariam, na segunda fase, a Zona Campeonato, enquanto os outros 19 ficariam na Zona Competencia, jogando pela permanência. Trocando em miúdos: os Millionários só não ascenderiam para a primeira divisão caso terminem entres os quatro últimos da atual segundona. Um modesto 16º lugar coroaria o retorno.

Interesses esportivos e políticos confabulam para que esse acordo esdrúxulo tenha tido o aval de 22 dos 26 clubes com direito a voto (Newell's Old Boys, Racing, Vélez Sarsfield e All Boys se abstiveram). No antigo (e já injusto) sistema de promedios – feitos para benefício dos grandes clubes – Boca Juniors, Independiente e San Lorenzo poderiam ter o mesmo destino do River na próxima temporada, pelo baixo índice acumulado nos últimos anos. A "federalização do futebol", como vem sendo tratado o ato, erradica essa possibilidade nos próximos anos. Os pequenos, que pelo antigo sistema, tinham de ter ótimo desempenho pós-acesso para não serem rebaixados, também abraçaram a novidade sem nenhuma vergonha. Além de fazer parte da nata, o dinheiro proveniente das cotas de TV é generoso.

Já o governo, que investiu R$ 1,2 bilhão para estatizar os direitos de TV, usou a sua "mercadoria" como instrumento político para as eleições deste ano para a presidência. Além dos comerciais de cunho político em meio às transmissões do esporte mais popular do país, o qual controla desde 2009 como uma espécie de CBF estatal, a medida também é um golpe contra o grupo Clarín, de oposição a Cristina Kirchner, que tinha contrato vigente com a Nacional B. O vínculo será suspenso. Profundo entendedor do futebol do lado de lá do Rio da Prata, o jornalista Mauro César Pereira explica, em detalhes, a relação de Grondona e o governo desde a época da ditadura e o uso da bola como plataforma política nesta última Copa América – algo que já está sendo feito por aqui para a Copa do Mundo de 2014.

Além do flerte escancarado entre política e esporte (que sempre existiu, na maioria dos governos populistas), o inchaço da elite do futebol portenho deve derrubar a competitividade de um dos melhores torneios nacionais do mundo, rendido a uma indecrifrável fórmula do mata-mata e que dá margem a outras viradas de mesa, caso os grandes times voltem a patinar no futuro fantasma que rondou o futebol brasileiro por muitos e muitos anos.

A lama na liga vai de encontro à ofuscada seleção argentina, que demitiu Sérgio Batista após a eliminação para o campeão Uruguai na Copa América. A AFA paga pela aposta em Maradona nas últimas Eliminatórias. O maior ídolo dos argentinos não soube adequar um esquema de jogo que favorecesse aos ótimos jogadores de frente da Albiceleste, que brilham individualmente no futebol europeu – mais que os brasileiros, inclusive. Mas que precisa reconstruir sua defesa e meio-campo defensivo, além de achar a melhor forma de fazer Messi render algo parecido com que ele faz no Barcelona, Agüero no Atlético de Madrid, Pastore no Palermo...um processo demorado que teria grandes chances de ver seu final de competição parecido com o de Batista.

Mesmo após fechar com Alessandro Sabella, campeão da América pelo Estudiantes, em 2009, a Argentina ainda deve depender, neste início de novo trabalho, da individualidade de seus talentos. Porque se depender do coletivo de seus dirigentes...

26.7.11

Ademílson: o Henry de Cotia

*Redigido originalmente para a seção "Fique de Olho", do site Olheiros (@olheiros)


Após bom papel no Mundial Sub-17, Ademílson foi promovido à equipe principal do São Paulo


Há jogadores que evoluem nos clubes e nas seleções brasileiras de base ao mesmo tempo, subindo em ambas de acordo com sua evolução como atleta. Há outros que precisam de um empurrão do destino ou de uma mão amiga para dar um salto na carreira. Foi o caso do atacante Ademílson, um dos destaques do Brasil no último Mundial Sub-17, que teve a ajuda decisiva de um "jovem veterano": Lucas Piazon.

Foi o companheiro de São Paulo – vendido em março para o Chelsea, por R$ 17,3 milhões – que o indicou ao técnico do Brasil, Émerson Ávila, que tinha algumas carências para sanar antes de fechar o elenco para o torneio. Por isso, o treinador chamou Piazon e outros jogadores de confiança para sugerir a observação de alguns candidatos. Ponto para
a amizade, já que Ademílson foi convocado e se tornou artilheiro da seleção no torneio disputado no México (ao lado do meia Adryan), com cinco gols.

Da Baixada Santista a Cotia

Natural de Cubatão, em São Paulo, Ademílson Braga Bispo Junior começou foi descoberto pelo diretor da escolinha do São Paulo em São Vicente, onde vivia. Logo ganhou bolsa para treinar no local e chamou a atenção de Toninho, comandante da equipe sub-13, em uma das competições promovidas pelo São Paulo Center, quando tinha apenas 11 anos. Aprovado para integrar a categoria de base do time do Morumbi, ele permaneceu monitorado na Baixada Santista até ter idade para poder se mudar para o Centro de Formação em Atletas, em Cotia, quartel-general da base são-paulina.

Ao integrar a equipe sub-15 do tricolor, Ademílson teve que, pacientemente, esperar pela sua chance, ofuscado por nomes mais conhecidos, como o do próprio amigo Piazon e do então titular Bruno Lima. Com a ausência de Piazon, convocação para a seleção brasileira e que voltaria somente na fase final do Campeonato Paulista, ele acabaria ganhando a posição quando a estrela do time voltou, deixando Lima no banco e formando parceria com a estrela do time, que atuava como segundo atacante.

Autor de 23 gols em 26 partidas no vice-campeonato paulista sub-15 do São Paulo, em 2009, o centroavante logo ganhou um apelido de peso: “Ademy Henry” – alusão ao atacante francês campeão do mundo com a França em 1998, Thierry Henry, tanto pela semelhança física quanto pela vocação de marcar gols. Na Copa Nike, disputada no mesmo ano, ajudou o São Paulo a trazer a taça, ficando a apenas dois gols de Lucas Piazon, grande destaque daquele torneio.

As boas atuações logo o alçaram ao time sub-17, mesmo com Ademílson tendo 16 anos. Foram nove gols na nova categoria, em 2010. Mesmo sendo bem mais baixo que o “xará” francês (1,75m, contra 1,88m), a semelhança do futebol da nova joia tricolor é inspirado em outro famoso e brigador centroavante que é ídolo no Morumbi e que voltou ao clube recentemente: Luís Fabiano. A facilidade de remates de média distante é aliada ao constante deslocamento, além da aptidão no posicionamento e cabeceio.

Indicação, DVDs e convocação

Enquanto o “Henry de Cotia” estava surgindo, Lucas Piazon era a grande estrela da categoria no Tricolor e um dos maiores jogadores do país nesta faixa etária. Tanto que no Sul-Americano Sub-17, disputado no Equador, ele era uma das estrelas que ajudou a conquistar o décimo título continental da seleção brasileira, ao lado de talentos como o meia Adryan, do Flamengo.

Ainda assim, Émerson Ávila não havia fechado o elenco que iria ao México para disputar o Mundial. Por isso, o treinador fez algo incomum, ainda mais em se tratando de equipes de base: pediu indicação de convocáveis aos seus comandados. E o parceiro de ataque não titubeou em rasgar elogios ao amigo. Desconfiado, Ávila foi até Cotia para ver Ademílson em ação. Gostou do que viu, mas pediu à direção tricolor alguns DVDs com lances do candidato. A análise minuciosa deu certo: a convocação para a Copa do Mundo foi a primeira da carreira do matador a serviço da verde-amarela e surpreendeu a todos.

“Eu sempre esperava ser convocado, mas não direto para o Mundial. Foi uma surpresa muito grande, até pensei que iria sentir o peso da camisa, mas meus companheiros, familiares e amigos conversaram comigo antes e me tranquilizaram. Agora já me sinto mais confiante”, disse ao Globoesporte.com, após se destacar no torneio.

De homem-surpresa a homem-gol

A boa impressão para o chefe foi além de Cotia e das imagens de seus gols e jogadas. Na preparação do elenco ao Mundial, na Granja Comary, o atacante não só ganhou a titularidade, reeditando o entrosado ataque do São Paulo com Piazon, como ficou encarregado de envergar a camisa nove. Que ele faria jus nos campos mexicanos.

Na estreia contra a Dinamarca, em Guadalajara, Adryan e Piazon, os mais conhecidos da equipe, ganharam mais atenção dos defensores nórdicos. Melhor para o centroavante, que, com maior liberdade em campo, deu seu cartão de visitas com apenas 31 minutos de estreia. Da entrada da área, ele bateu com força no canto do goleiro Korch, que não evitou o primeiro de seus cinco gols na Copa. No segundo tempo, foi dos pés do atacante o passe para o lateral Wallace, do Fluminense, marcar o segundo. Fechando o placar, Ademílson mostrou frieza na entrada na área para limpar os dinamarqueses e fuzilar no canto, coroando uma estreia impecável.

“Gostaríamos de ter alguns DVDs com ele. Foi, claro, um jogador-chave na partida. No primeiro gol, pensei: ‘Ok’. Mas o segundo foi muito bem feito, com uma boa finalização. Ele foi rápido, mostrou muita habilidade”, disse o surpreso comandante da Dinamarca, Thomas Frank, ao site da Fifa, após a derrota por 3 a 0.

Depois de passar em branco na vitória mínima sobre a Austrália, o goleador entraria em ação no disputado jogo contra a Costa do Marfim, que acabaria em 3 a 3, ao marcar o segundo gol do brasil. Nas oitavas, deixaria mais um tento contra os equatorianos e outro no triunfo por 3 a 2 sobre os japoneses. Os brasileiros perderiam a chance de levar o quarto título mundial da categoria na derrota para os uruguaios. Mesmo com o frustrante quarto lugar, por ora, a ordem do protagonismo se inverteu: Ademílson saiu como um dos destaques da competição, ao contrário do amigo Piazon – já vendido ao Chelsea – que ficou abaixo das expectativas na competição.

Coincidência ou não, o São Paulo já havia resolvido apostar pra valer no futebol de sua mais nova estrela em dezembro de 2010, quando rubricou o primeiro contrato profissional com o atacante por três anos, elevando sua multa rescisória para 30 milhões de euros. E com recente política do clube do Morumbi em valorizar mais os talentos formados em casa – Lucas, Casemiro, Wellington e Bruno Uvini, os mais constantes –, o Henry de Cotia pode reaparecer aos olhos dos torcedores do São Paulo, que já tiveram uma ótima primeira impressão de sua mais nova joia.

Ficha técnica

Nome: Ademílson Braga Bispo Junior
Data de nascimento: 09/01/1994
Local de nascimento: Cubatão, São Paulo
Clube que defendeu: São Paulo
Seleção de base que defendeu: Brasil sub-17

25.7.11

E se o Brasil for eliminado da Copa do Mundo?

Antes que me chamem de antipatriota, vamos deixar claro: sempre torço pela seleção brasileira e quero que o time de azul e amarelo levante a taça no final da Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Mas todos nós sabemos que nossa seleção, apesar de ser uma boa equipe, não é invencível, e não é absurdo cogitar uma derrota, ou a vitória de outras boas seleções que existam por aí.

No momento em que escrevo este texto, Uruguai e Paraguai se enfrentam pela final da Copa América. Ao mesmo tempo em que acontece a final do que deveria ser o torneio de seleções mais importante da América, outras quatro partidas estão sendo jogadas pelo Campeonato Brasileiro, exatamente no mesmo horário. Nenhum canal de TV aberta transmite a final da Copa América, e portanto, apenas aqueles que pagam pela tv a cabo podem acompanhar Forlán e companhia.

Esse padrão se repetiu a semana inteira, desde a partida em que a seleção canarinho foi eliminada da copa. As informações sobre o torneio sumiram dos telejornais, dando lugar ao calendário de jogos nacionais ou àquelas reportagens insuportáveis tentando entender porque a seleção perdeu. Confesso que, não fossem meus amigos aqui do Opinião FC, que correram a comentar a partida do Uruguai no Facebook, eu provavelmente teria assistido, sem muito interesse, uma partida da tv aberta, esperando notícias sobre possíveis gols do meu time.

E é aqui que volto a pergunta do título deste texto. E se em 2014, em plena na Copa do Mundo do Brasil, a seleção perder? Vamos fingir que a Copa não existe e ignorar as seleções que ainda disputam o torneio? Vamos ter que recorrer aos canais pagos e pay-per-views da vida para assistir à final do campeonato mais importante do futebol?

Estou exagerando, claro. Creio que as emissoras são obrigadas, por contrato, a transmitir a final da Copa do Mundo. Mas eu não me surpreenderia se não transmitissem, caso não fossem. Nós estamos acostumados a pensar que o Brasil é o país do futebol, mas na prática, isso só é verdade quando nossa seleção está em campo. No resto do tempo, somos estranhamente apáticos às outras equipes. Nós lidamos com o futebol com uma certa arrogância de quem se acha o melhor, e quando perdemos, simplesmente queremos levar a bola embora e acabar com a brincadeira.

Dito isso, espero que nossa seleção chegue à final da Copa de 2014. Se não chegar, torço ao menos para que nossa torcida não dê o vexame de uma final de Copa em um Maracanã vazio.

19.7.11

A Copa das surpresas

Provavelmente nem o mais pessimista dos espectadores poderia prever a eliminação dos quatro favoritos das quartas-de-finais da Copa América 2011. Afinal, em 95 anos de história, apenas em duas edições Brasil e Argentina não figuraram entre os semifinalistas: 1939 e 2001.

Entre as quatro seleções restantes o favoritismo recai sobre os colos de uruguaios e paraguaios, como prováveis finalistas. Com tantas zebras, porém, é melhor não descartar nova surpresa de peruanos e venezuelanos. Por quê? É o que vamos conferir...

Peru vs. Uruguai
Para confirmar o favoritismo

Zambrano, Rabanal, Luíz Ramires, Fárfan e Pizarro. Ninguém imaginava que com uma lista de desfalques tão grande La Rojiblanca terminaria entre os quatro melhores selecionados da América. Na busca pelo tricampeonato, os peruanos apostam nos gols de Guerrero e na velocidade do trio formado por Chiroque-Advíncula-Vargas. Do meio para trás, a receita é velha conhecida: muito chutão, além de pesada e, por vezes, violenta marcação.

Embalada pela ótima participação na Copa de 2010, a Celeste é a seleção que até o momento mostrou maior entrosamento e qualidade com a bola nos pés. Ainda sofre com a ausência de um armador cerebral, apesar de contar com um Muslera inspirado, boas alternativas de ataque pelos lados do gramado (com Max e Álvaro Pereira) e uma dupla formada pelo inteligente Forlán e pelo hábil Suárez. Deve tomar cuidado apenas com a cobertura feita à zaga, já que Lugano não fez boa temporada e apresenta-se lento em demasia.

Raio-X do Confronto
Peru (4-2-3-1): Valverde; Revoredo, Acasiete (Christian Ramos), Alberto Rodríguez e Vilchez; Balbín e Cruzado; Chiroque, Advíncula e Vargas; Guerrero. Técnico: Sergio Markarían. Campanha: 4J, 2V (1 na prorrogação), 1E, 1D, 4GP, 2GC – 3º do Grupo C
Uruguai (4-4-2): Muslera; Max Pereira, Lugano, Coates e José Cáceres; Egurén (Gargano), Arévalo, Álvaro Gonzáles e Álvaro Pereira; Forlán e Suárez. Técnico: Oscar Tabarez. Campanha: 4J, 2V, 2E, 0D, 4GP, 3GC – 2º do Grupo C.
Desfalques do confronto: O beque Acasiete volta de lesão, é dúvida. No lado celeste, o volante Perez, expulso, não joga. Cavani ainda não está 100%.
Porque os peruanos avançam: Possuem um forte sistema defensivo e costumam retrancar o meio-de-campo adversário, aproveitando-se de jogadas de contra-ataque. Guerrero é rápido e pode aproveitar-se da lentidão da zaga para decidir a partida.
Porque os uruguaios avançam: Favoritos. Dentre os quatro são os que contam o melhor elenco e maior tradição. Além disso, possuem uma excepcional dupla de ataque, decisiva. Muslera é bom goleiro e atravessa grande fase.
Palpite: Uruguai 75%, Peru 25%


Paraguai vs. Venezuela
Espantando a zebra

Mesmo sem ter conseguido sequer uma vitória na competição, La Albirroja é a favorita do duelo. A atual quarta força do continente, ainda detém como maior qualidade o forte sistema defensivo. Mesmo sem Alcázar, contará com o seguro quarteto Verón-Da Silva-Vera-Riveros. Se a dupla de ataque, outrora badalada, começar a funcionar e o time controlar melhor os nervos nos minutos finais para não ceder vitórias garantidas, os Guaranís serão páreo duro. Ainda mais se Villar continuar fechando o gol, como na partida frente aos brasileiros.

Donos de uma campanha histórica, Los Llaneros chegam totalmente descompromissados. Apesar de possuírem um meia (Arango) com grande visão de jogo e fortes jogadas ensaiadas de bola parada, pecam por não terem uma dupla de ataque convincente e um time mais rodado. A defesa não compromete e Vega passa tranqüilidade à zaga. Não deixam de serem zebras. Mas estão longe de serem os sacos de pancada de sempre.

Raio-X do Confronto
Paraguai (4-4-2): Villar; Piris, Dario Verón, Da Silva e Aureliano Torres; Vera, Riveros,Victor Cáceres (Ortigoza) e Estigarríbia; Haedo Valdez (Santa Cruz) e Barrios. Técnico: Gerardo Martino. Campanha: 4J, 0V, 4E, 0D, 5GP, 5GC – 3º do Grupo B
Venezuela (4-3-1-2): Vega; Rosales, Perozo, Vizcarrondo e Cichero; Orozco (Di Giorgi), Lucena e César Gonzáles; Arango; Maldonado e Fedor (Rondón). Técnico: Cesar Farías. Campanha: 4J, 2V, 2E, 0D, 6GP, 4GC – 2º do Grupo B
Desfalques do confronto: O zagueiro guarani Alcázar e o meia vinotinto Rincón cumprem suspensão por terem recebido cartão vermelho. Além deles, Santa Cruz, lesionado, deve ficar fora.
Porque os paraguaios avançam: Apostam na base que ficou entre as oito melhores da Copa de 2010. Experientes, têm um time entrosado e uma defesa difícil de ser transpassada. Apesar de ainda não terem convencido, Barrios e Valdez merecem atenção.
Porque os venezuelanos avançam: Surpresa. Jogam sem a responsabilidade de vencer. Raçudos, compensam a limitação técnica com muita marcação. Arango é o atleta diferenciado, aquele que cadencia o jogo e faz todas as bolas passarem por seus pés.
Palpite: Paraguai 80%, Venezuela 20%

14.7.11

Vinotinto, safra 2014


Certa feita, o amigo Thiago Barretos – um dos idealizadores deste blog – disse que a Venezuela poderia brigar por uma vaga na Copa de 2014. Absolutamente todos nós, inclusive este que escreve estas linhas, emitimos opinião veementemente contra. Claro que o tema é oportunista, dado o heróico empate diante do Paraguai por 3-3, nos últimos sete minutos de jogo. Mas a seleção Vinotinto, saco de pancadas histórico na América do Sul, já deixa participantes de Copas como Bolívia e Peru para trás. E com uma vaga a mais, decorrente da classificação do Brasil como país-sede do Mundial de 2014, a América do Sul ainda terá as 4,5 vagas (a quinta, em repescagem) habituais. E a Venezuela hoje é forte candidata a sonhar com o jogo extra que a levaria primeira Copa de sua história.

Desde que recebeu a edição anterior à esta Copa América, em 2007 – com fortes investimentos estruturais feitos por Hugo Chávez, assim como acontece atualmente com Pastor Maldonado, na Fórmula 1, bancada pelo líder do país e a poderosa petroleira PDVSA –, a seleção acentuou seu papel no futebol sul-americano. Única seleção filiada à Conmebol que nunca se classificou a um Mundial, até o ano 2000, a Venezuela só havia vencido duas partidas na história das Eliminatórias: em 1981, contra a Bolívia, e em 1993, contra o Equador. No qualificatório para a Copa da Coreia do Sul e Japão, não foi a última colocada do torneio pela primeira vez (terminou em nono). Na edição seguinte, subiria mais uma posição.

Depois da Copa América em casa – onde se qualificou no primeiro posto (o grupo tinha Peru, Uruguai e Bolívia) e acabou eliminada após goleada da Celeste, nas quartas – a equipe passou por um gradual processo de renovação. Nas Eliminatórias da Copa de 2010, César Farías assumiu a equipe na quinta rodada. E a Vinotinto chegou à última rodada com chances de tomar o lugar do Uruguai na repescagem. Mesmo com a missão inglória em vencer o Brasil, em Campo Grande, os visitantes arrancaram o empate – e alguns meses depois, em um amistoso nos Estados Unidos, a vitória histórica sobre os pentacampeões mundiais por 2 a 0. Terminariam na mesma oitava posição de 2006, mas apenas dois pontos abaixo dos uruguaios.

Classificados pela primeira vez a um torneio Fifa, no Mundial Sub-20 de 2009, no Egito, acabou fora nas oitavas de final. E a sucessão de quebra de marcas e resultados surpreendentes também deram as caras nesta Copa América. Com empates diante do Brasil e Paraguai, onde atuou bem, dentro de suas váris limitações, os comandados de Farías só não foram os campeões da chave pelo saldo de gols.

Além disso, mais jogadores do país estão tendo experiências fora do futebol local. Em 2007, nove atletas chegaram à Copa América oriundos de clubes colombianos, cipriotas, noruegueses e portugueses, ficando a cargo de Juan Arango, uma das estrelas do mediano Mallorca, à época. Na edição argentina do torneio continental, já havia três venezuelanos em times da Bundesliga, três em La Liga, além de mais representantes no futebol mexicano, argentino, estadunidense, português e holandês, totalizando 14 atletas, o que aponta a difusão e valorização gradual do país no cenário global.

Com o trabalho de Farías mantido, uma renovação gradual e jogadores mais experientes no planeta bola, porque não sonhar com uma vaga no suprassumo do futebol mundial, bem no "quintal" venezuelano? Em teoria, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai brigariam pelas vagas diretas. A repescagem tem o Equador (participante de Mundiais desde 2002), que também tem boa experiência internacional, mas é irregular. Já a Colômbia tem bons valores individuais, mas sofre para enquadrá-los em um esquema de jogo, fato que deixou a seleção cafetera de fora dos últimos três mundiais.

2.7.11

Caminho errado

Messi, Agüero, Pastore, Higuaín, Di Maria, Tevez, Diego Milito. Se sobram opções de frente para a argentina (pelos nomes, até mais que a da Seleção Brasileira, por exemplo), a parte defensiva da Argentina segue sendo o calcanhar de Aquiles da equipe, agora comandada por Sérgio “Checho” Batista. Além do gol bizarro sofrido diante da Bolívia, na estreia da Copa América, muitos viram a falta de padrão tático. E diga-se de passagem, essa era uma das maiores críticas à Albiceleste na “Era Maradona”, quando o time sucumbiu na Copa do Mundo de 2010 diante da ótima e organizada Alemanha por 4 a 0.

Pela indiscutível qualidade do melhor do mundo, Lionel Messi, muito falou-se em “jogar como o Barcelona”. Vejo que a Argentina tem que deixar tal inspiração de lado, visto que o seu suporte defensivo não comporta o esquema, que prima pela ofensividade, mas tem uma série de pilares para que o time de Guardiola não seja alvejado de chutes ao gol de Victor Valdés.

Além de ter goleiros longe de passar segurança, a defesa argentina tem um problema crônico: a falta de ritmo de jogo, além do entrosamento – um dos fatores de sucesso do Barça, a manutenção da base. Titulares de Batista, Burdisso e Gabi Milito formam nova dupla na seleção. Mas enquanto Burdisso é constante na zaga da Roma, Gabi sofreu com as constantes contusões e não é nem um reserva confiável no Barcelona. Tanto que quando Puyol se contundiu, na reta final da última temporada, Guardiola se sentiu mais seguro em improvisar o também reserva Mascherano na zaga. Reserva imediato, Ezequiel Garay também pouco atuou pelo Real Madrid e 2010/11.

Na meia cancha, Mascherano, Cambiasso e Banega pularam na frente. Apesar da capacidade dos dois últimos de chegar à frente, mesmo como volantes de origem, estão longe de Xavi e Iniesta (mais meias do que volantes). Javier Pastore, cobiçado por diversos times de ponta pela ótima temporada no Palermo, poderia ser utilizado como enganche, auxiliado por Cambiasso e fazendo com que Messi – que sem o apoio devido, fez partida discreta – não tivesse que recuar tantas vezes para buscar a bola. Agüero, outro de ótima temporada, também provou ontem (não só pelo golaço salvador) que não pode ser banco do bom Lavezzi.

Sem dúvida, a Argentina ainda pode crescer durante a Copa América e sair da seca de títulos que já dura 18 anos. Mas o que a Albiceleste precisa agora é de um “efeito Muricy”, guardadas as devidas proporções. Um treinador que arrume o time de trás para frente, já que a força ofensiva argentina é indiscutível, assim como era o Santos antes da chegada de Muricy. Foi fortalecendo a defesa e o meio-campo que ele endireitou o Peixe até a conquista da Libertadores.

22.6.11

Fênix Celeste*

*Publicada originalmente pela rede de jornais BOM DIA em 22 de junho de 2011

Primeiro campeão sul-americano (1916) e mundial (1930), o Uruguai adormeceu. Após a derrota para o Brasil na semifinal da Copa de 1970, no México, poucos resultados de expressão sucederam um período de ostracismo nas décadas seguintes. Até que veio o ano de 2010 e coroou a ressurreição da Celeste. O técnico Oscar Tabárez – que assumiu o comando da equipe em 2006, após não obter a vaga para o Mundial da Alemanha – levou a Celeste ao quarto lugar na Copa da África do Sul, acima dos eternos rivais Brasil e Argentina. E o melhor jogador do torneio foi um uruguaio: o atacante Diego Forlán.

Neste ano, a equipe sub-20, também sob a batuta de Tabárez, garantiu a volta do futebol à Olimpíada depois de 84 anos de sua última participação, no bicampeonato olímpico em 1928, em Amsterdã (Holanda). Para o ex-jogador Darío Pereyra, El Maestro (O Professor, em espanhol) tem grande parte dos créditos da volta uruguaia aos holofotes. “Ele tem grande experiência e conhece muito o futebol uruguaio”, afirmou o ídolo do São Paulo, pelo qual atuou 11 anos (1977 a 1988).

Darío, que disputou a Copa de 1986 pela Celeste, relembra que o país sempre produziu bons jogadores, mesmo com recursos escassos, pouco populoso (cerca de 3,5 mi de habitantes) e de território quase igual ao do estado do Paraná. “O Uruguai sempre trabalhou bem na base, mesmo com limitações de dinheiro. Você vê que os centros de treinamentos de lá não são como os daqui [Brasil]”, compara.

Na opinião do jornalista Luís Augusto Símon, autor do livro “Tricolor Celeste” – que conta a história de jogadores uruguaios que brilharam com a camisa do São Paulo – os bicampeões mundiais voltaram às origens. “O Uruguai voltou a jogar um futebol bonito. Tem um mito de que o futebol de lá só tem raça. Quando foi campeão em 1950 [sobre o Brasil], era um time muito bom com Ghiggia e Schiaffino. Os brasileiros usaram só a raça uruguaia para justificar a derrota”, explicou. Símon também aponta o surgimento de novos valores da base, como os atacantes Edinson Cavani (Napoli) e Luís Suárez (Liverpool) para a guinada Celeste, que pode ser confirmada nesta Copa América, na Argentina. “As distâncias [para Brasil e Argentina] dimunuíram e o Uruguai pode sim ganhar a Copa América.”

Despertar do Peñarol, de Aguirre

Autor do gol que deu o quinto título do Peñarol na Libertadores em 1987, sobre o América de Cali-COL, Diego Aguirre se inspirou no banco de reservas para levar o terceiro maior campeão sul-americano de volta a uma decisão após 24 anos. O técnico era atacante daquela equipe, treinada por Oscar Tabárez . Em sua segunda passagem pelo Peñarol, La Fiera (A Fera, em espanhol) assumiu o clube em 2010 com 10 pontos de desvantagem para o arquirrival Nacional. E o ídolo reverteu o quadro, levando a equipe Carbonera ao título uruguaio.

“O futebol é incrível e isso fez muito bem ao futebol do Uruguai, além do Peñarol. Porque esta é uma notável contribuição para o futebol uruguaio. É impressionante para as equipes jovens e uma maneira para eles acreditarem novamente”, disse o técnico ao periódico local “El Observador”.

Aguirre vê relação o momento do Peñarol com o resgate da seleção uruguaia. “A Copa do Mundo foi um gatilho que gerou coisas parecidas. Mas isso despertou um sentimento muito especial de propriedade. Até o torcedor do Nacional aplaudiu nossos êxitos, e para isso, devem ter coragem para admiti-lo, pela rivalidade que nos divide. Isso nos faz acreditar que estando em uma equipe uruguaia, tudo é possível.”

21.6.11

Futebol sem moral

POR VERÔNICA LIMA

Gosto de acompanhar futebol, confesso que um certo sentimento de vingar todas as mulheres quando fico a par de campeonatos, atuações de jogadores, escalações, crítica a cartolas. Futebol também é coisa de "menininha". Ou mulheres como eu dispensam esse adjetivo. No entanto, ando meio sem tempo para os campeonatos. Mas desconfio que não é só isso o que afasta minha atenção dos gramados.

Percebo que, como em outras esferas da vida, o futebol tem se tornado cada vez mais moralista. E, nesse caso, o moralismo não se aproxima nem um pouco do que poderíamos chamar de ética desportiva, esta sim total e necessariamente defensável.

Nesta semana, fiquei sabendo da decisão da Uefa de suspender por duas partidas os jogadores que forçarem um terceiro cartão amarelo para espantar o fantasma do risco de estar fora de jogos decisivos. Aparentemente ética, a decisão é de um moralismo que beira o bom-mocismo. Que fique claro: condeno toda e qualquer atitude violenta dentro dos campos, gosto do dito "jogo jogado", da malemolência que escapa das faltas frequentemente dignas de futebol americano. Mas a Uefa forçou a barra: qual é a fronteira que separa a famosa malandragem da raça de jogo, da vontade de ganhar ou mesmo da cabeça quente típica dos pré-momentos-decisivos do campeonato. E mais: onde fica a autonomia do juiz, autoridade soberana no retângulo mágico do gramado?

A impressão é que cada vez mais se esquece da essência lúdica do futebol, não apenas em nome do chamado "mercado da bola", mas também em nome de um moralismo que resulta em jogadores (e jogadas) cada vez mais previsíveis, em campeonatos cada vez menos emocionantes, em juízes cada vez mais pasteurizados e sem características pessoais. Até as comemorações de gols feitas pelos craques estão cada vez mais entediantes – vide, por exemplo, a tal dancinha ridícula inventada pela Globo a partir de um imbecil personagem, o João Sorrisão.

Foi-se a fascinante característica que o futebol trazia de ser decidido ali, dentro de campo, nos 90 minutos suados, tempo de unhas roídas, de corações apertados, de gritos, risos, palavrões, xingamentos. Enfim, paixão. Simplesmente pelo prazer de torcer, de ver a arte de controle da bola, a magia de balançar a rede.

E não se trata de nostalgia. Só cansei de ver os jogos serem decididos fora de campo.

19.6.11

River de lágrimas

Talento da nova geração, Lamela não conseguiu ajudar o River a escapar da vergonha da Promoción

O que parecia soar absurdo há três Campeonatos Argentinos atrás, quando o River foi campeão, aconteceu. O maior campeão nacional da história do país está à beira do momento mais negro de sua história: o rebaixamento para a segunda divisão, mesmo com o regulamento do promédio (implantado a partir de 1982, para salvar a queda do próprio River). O aproveitamento pífio de 41% de pontos nos 114 jogos das últimas três temporadas culminaria na derrota em casa, neste sábado, diante do Lanús, que sacramentou os Millionarios à Promoción, contra o modesto Belgrano. Apesar de jogar por dois placares iguais, a equipe está abalada psicologicamente.

A imprensa argentina, de modo geral, não culpa apenas o atual elenco do River. As várias más contratações e a passagem de cinco treinadores diferentes neste período foram postas na conta dos presidentes José Maria Aguilar e Daniel Passarella (um dos ídolos do clube, na época de atleta), principalmente o primeiro, que deixou ao sucessor um clube endividado em quase 10 milhões de reais. Sem dinheiro para fazer grandes investimentos, o time dentro de campo também refletia um pouco deste conturbado momento administrativo. E dos chamados cinco grandes da Argentina (Boca Juniors, Independiente, Racing, River Plate e San Lorenzo de Almagro), apenas Xeneizes e Rojos e os Millionarios (até aqui)não passaram pela humilhação de disputar a Nacional B.

Nos últimos anos, os torcedores brasileiros viram vários de seus grandes clubes caírem para a segunda divisão, após uma má temporada. Mas o sistema dos nossos vizinhos é desfavorável aos recém-promovidos e aos times. A formula, basicamente, consiste no cálculo da média dos três últimos campeonatos pelo número de partidas realizadas, contra os 38 jogos dos novatos no Apertura e Clausura, obrigando-os a fazer boa figura nos torneios seguintes para que não retornem ao ostracismo da divisão de acesso.

A eminente queda de um grande mostra uma sucessão de erros, imperdoável a um gigante como o River, um elenco que amontoa jovens talentos (Lamela, Buonanotte e os irmãos Funes Mori, por exemplo) a diversos jogadores experientes, longe de seu melhor momento na carreira (Ferrari, Almeyda, Ferrero), além do irregular goleiro Carrizzo, entre outras contratações, repatriamentos e escolhas equivocadas.

O destino de 110 anos de história e 33 títulos argentinos passa por Córdoba. Mas o maior inimigo do River não é o Belgrano. É o próprio River.

14.6.11

O gol como presente

Empilhadeiras dão a Palermo a meta vazada por ele inúmeras vezes na Bombonera

No último domingo, a Bombonera deu adeus a um dos seus maiores ídolos na história. Apesar de não ser nenhum primor técnico como atleta, Martín Palermo sabia, como ninguém, a arte de marcar gols com a mítica camisa Xeneize: dos 297 de sua carreira, 235 foram pelo Boca (é o maior artilheiro da história do clube), com 124 deles marcados na casa boquense. Nada mais justo, após a partida contra o Banfield, que lhe dessem a baliza do estádio de presente, que ele conhece tão bem. Fora toda a festa feita, digna de Fenômeno. Que teve um adeus merecido, é verdade. Mas centrado demais às toneladas de elogios feitos por Galvão Bueno nos 15 minutos em que o eterno camisa 9 brasileiro jogou contra a Romênia. E uma festa pouco planejada no intervalo. Se tivesse visto a festa feita para El Loco, poderiam ter repensado tudo e o homenageado com mais estilo.

Por muito tempo, Palermo ficou marcado para os brasileiros como o homem que desperdiçou três pênaltis na Copa América de 1999, contra a Colômbia. Ainda assim, mais de dez anos depois, os deuses do futebol lhe deram a oportunidade de pagar tal dívida, com o gol nas Eliminatórias da Copa, diante do Peru, que manteve vivas as chances da Albiceleste ir ao Mundial da África do Sul, para o qual acabou classificada. E o Titán teve oportunidade de disputar a única Copa de sua carreira. E ser muito festejado, ao marcar o gol contra a Grécia.

O DNA de Palermo foi feito para que ele só brilhasse pelo Boca. Revelado pelo Estudiantes de La Plata, o matador teve passagem discretíssima pelo futebol espanhol (Villarreal, Betis e Alavés). Mas é veneradíssimo. Tanto que torcedores do Boca se mobilizam em um site para que a prefeitura de Buenos Aires crie o dia de San Palermo: 24 de maio (que remete ao "gol de muletas" contra o River Plate, em 2000, quando o camisa nove fez o gol com a perna contundida), 22 de junho (data do único gol de Palermo em Copas do Mundo, em 2010, contra a Grécia) ou 10 de outubro (data do gol que manteve o sonho de classificação da Argentina vivo, nas Eliminatórias Sul-Americanas, em 2009).

Tive a oportunidade de ver esse fanatismo de perto, na única vez em que estive na Bombonera. Riquelme era o maestro que joga com a cabeça erguida, enquanto Palermo tinha dificuldades em jogar com a bola dominada. Mas que se transformava quando surgia a possibilidade de marcar gols. Ambos são venerados igualmente. Ao todo, o Titán venceu com o Boca seis Campeonatos Argentinos, duas Copas Libertadores e um Mundial de Clubes, decidindo a final contra o temido Real Madrid. Mas ele não é ídolo pelos títulos.

O fenômeno de Palermo é cada vez mais raro: a identificação genuína com um clube e sua torcida. Um otimista do gol, como é conhecido. O futebol precisa de mais jogadores goleadores, caneleiros e que trazem paixão ao futebol, como Palermo.


11.6.11

Quero ser um Barcelona

Que o Barcelona é o time com o qual todos sonham atualmente, não há dúvidas. Todo mundo que admira o belo futebol dos comandados de Pep Guardiola gostaria, no fundo, que a equipe reverenciada mundialmente fosse a sua de coração. Se existisse um Barça na prateleira, seria o objeto de consumo mais cobiçado. O papo mercadológico, que soa absurdo, é, de certa forma, uma das metas do mais novo rico que resolveu despejar caminhões de dinheiro em um clube de futebol: o sheikh Abdullah ben Nasser Al-Thani, pertencente à família real do Qatar, vice-presidente do Doha Bank, membro das diretorias do Al-Rayyan (clube do técnico brasileiro Paulo Autuori) e da Federação Equestre do Qatar. Em junho de 2010, ele comprou o modesto Málaga, da Espanha, por 36 milhões de euros (R$ 81 milhões).

O dono de hotéis, shopping centers, empresas de telefonia móvel e concessionárias de veículos, com mais de 3000 empregados e com seus interesses chegando a 30 países distintos chegou na Espanha com discursos não muito diferentes de Roman Abramovich (russo proprietário do Chelsea ou Khaldoon Al-Mubarak (árabe que assumiu o comando do Manchester City): levar Los Boquerones às cabeças do futebol espanhol, que possui um abismo entre os poderosos Barcelona e Real Madrid para os outros times da elite do país. O Málaga quer seguir o exemplo de Sevilla e Villarreal, que ganharam mais status nos últimos anos. Movidos a muito dinheiro.

Contudo, o plano de Al-Thani quase foi postergado em uma temporada. A equipe da Andaluzia flertou boa parte de La Liga com a zona de rebaixamento. Inclusive, demitindo o primeiro técnico da nova era do clube, o português Jesualdo Ferreira, multicampeão com o Porto. Com a contratação do chileno Manuel Pellegrini – um dos responsáveis pela ascensão do Villarreal, mas que havia fracassado com o galáctico Real – e a vinda de reforços (o principal deles foi o brasileiro Júlio Baptista, com 11 jogos e nove gols), a equipe se salvou e conseguiu ficar na 11ª posição da liga nacional.

Com a salvação, o qatari anunciou o seu segundo (e ousado) grande passo na reformulação do clube: copiar o Barcelona. Além da bolada de R$ 225 milhões para a vinda de novos reforços, o sheikh fechou um acordo com a Nike, pagando para a empresa estadunidense fabricar seus uniformes, e não o contrário. Essa é a mesma Nike que patrocina os catalães desde 1998 e pagam cerca de 30 milhões de euros/temporada para fabricar material esportivo do clube. No patrocínio principal do clube, está a logomarca da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), órgão ao qual Al-Thani doará 1,5 milhões de euros/ano para divulgá-la em seu uniforme. Semelhante ao acordo entre Barcelona e Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Só que com o endividamento do clube, a entidade da ONU perdeu o principal espaço em seu fardamento para a Qatar Foundation, primeiro patrocínio comercializado na história do clube.

O novo dono do Málaga também promete um estádio novo, para 65 mil pessoas, além de investimentos maciços nas categorias de base (canteras) da agremiação – oito dos atuais 11 titulares do Barça são formados em La Masia, local de formação de atletas blaugranas. E os torcedores andaluzes andam eufóricos, com a comercialização de quase a metade dos 25 mil carnês para a temporada 2011/12 e lotando o acanhado estádio de La Rosaleda para receber o veterano Ruud Van Nistelrooy, primeiro grande reforço da equipe após o final do campeonato.

Claro que muitos dos preceitos do Barcelona passam longe de simplesmente a injeção de verbas, já que muitas das características históricas do clube são intimamente ligadas à luta para o reconhecimento e o orgulho da cultura da Catalunha. Mas é curioso o fato de Al Thani não querer que o Málaga seja “o novo Chelsea”. O patamar de “novo Barça” é ainda mais inalcançável. É tempo de saber por quanto tempo o sheikh vai aguentar brincar com a sua nova aquisição. E se a onde de "quero ser um Barcelona" contagiará aos futuros novos ricos que vão se aventurar com o futebol.

4.6.11

Título de segunda, base de primeira

Redigido originamente para a seção "Meninos ganham campeonatos", do Olheiros (@olheiros)

O Coritiba que assombrou o Brasil ao conquistar o Campeonato Paranaense deste ano de forma invicta (coroando o bi estadual) e emplacar recorde de 24 vitórias seguidas – quebrando a marca do fabuloso Palmeiras de 1996 – consagrou dois jogadores, em especial: o goleiro Édson Bastos e o zagueiro Jéci. Ambos presentes no início do ressurgimento recente do Coxa, obtido a partir do título da Série B do Brasileirão, em 2007.

Mas ao contrário do bom time montado pelo técnico Marcelo Oliveira desde o ano passado e que também conquistou o título da Segundona, o Coritiba de quatro temporadas atrás tinha uma espinha dorsal totalmente formada em casa. O zagueiro Henrique, os meias Pedro Ken e Marlos, e o então promissor Keirrison, entre outros, foram primordiais para levar o clube à elite do futebol nacional, sob a batuta de René Simões.

Guinada graças à base

Maior campeão paranaense, o Coritiba amargava seca por novas conquistas. Após o ótimo quinto lugar no Brasileirão de 2003 e o título estadual de 2004, os Alviverdes estavam há três anos sem uma taça nova em sua estante. O irregular

terceiro lugar do Paranaense – eliminado pelo surpreendente campeão Paranavaí – não foi suficiente para derrubar o técnico Guilherme Macuglia, que iniciou a jornada daquela Série B. Mas o comandante só resistiria por quatro rodadas no cargo, quando foi demitido após uma derrota para o São Caetano em casa, no início de junho. Sem saber, era ali que começaria a grande reviravolta no clube.

Poucos dias após a queda de Macuglia, a diretoria confirmaria a vinda de René Simões para o cargo. O ex-ídolo do clube e coordenador das categorias de base Dirceu Krüger assumiria como seu auxiliar técnico. Com seu conhecimento sobre a característica dos jovens – alguns já aproveitados por Macuglia desde o início do ano – e a batuta do novo treinador, o Coritiba ganhou impulso rumo ao acesso à elite e ao título.

Coube a Simões mesclar, com eficiência, a experiência de jogadores como o goleiro Édson Bastos, o lateral-direito (muitas vezes, improvisado na zaga) Anderson Lima e o zagueiro Jeci com o sangue novo de Henrique, Pedro Ken e o goleador Keirrison – destaques do Coxa semifinalista da Copa São Paulo de 2006 –, adicionados ao meia Marlos e os atacantes Henrique Dias e Gustavo, opções constantes para o Alviverde. Então com 18 anos, Keirrison terminaria a Série B com 12 gols e a artilharia da equipe. E muitas das chances do K9 vinham dos pés de Pedro Ken, o “japonês”.

Com o acesso garantido a quatro rodadas do fim do torneio, o Coritiba ainda seria campeão daquela Série B. E toda a trajetória, envolvendo elenco, técnico, torcida e bastidores, foram contadas pelo próprio René no livro “Do Caos ao Topo - Uma Odisseia Coxa-Branca” , lançado em 2008.

Sucesso, desmanche e sumiço

As jovens revelações logo virariam objeto de cobiça por parte de clubes de maior porte no Brasil. O primeiro a deixar a capital paranaense foi Henrique, que integrou o Palmeiras campeão paulista de 2008. Vendido por R$ 6 milhões, o defensor ficou apenas quatro meses a mais no Brasil, quando foi levado ao Barcelona por mais de quatro vezes o valor da negociação inicial. Porém, o bom zagueiro ainda não teve chances na equipe catalã e acabou emprestado ao Bayer Leverkusen e ao Racing Santander, onde não alcançou o destaque dos tempos de Coxa.

Cérebro daquela equipe, Pedro Ken ainda seria peça importante na conquista do Paranaense de 2008, mas lesionaria o joelho no Brasileirão do mesmo ano. Voltou aos campos em 2009, mas sem o mesmo brilho do início. Ainda assim, o Cruzeiro pagou R$ 4 milhões por parte de seus direitos. Com poucas chances e com constantes lesões na Toca da Raposa, ele foi liberado pelo time mineiro para jogar, por empréstimo, em outro clube da Série A – provavelmente o recém-promovido Figueirense.

O que mais permaneceu no clube foi Marlos, mas o meia acabou saindo sem render um centavo aos cofres do Coritiba. Outro dos destaques do título estadual de 2008 e habitual na equipe desde então, sua velocidade e habilidade despertaram a cobiça do São Paulo, que esperou o fim de seu contrato para anunciá-lo em transferência livre. Contudo, em dois anos no Tricolor, não é nem sombra do jogador que parecia ser e é constantemente criticado pelo excesso de preciosismo e a má conclusão ao gol.

Sem dúvida, o caso mais emblemático é o de Keirrison. Acostumado a ser matador desde a base do Coritiba, K9 foi o artilheiro do Paranaense 2008, com 18 gols (foi escolhido como o craque do torneio), e um dos marcadores máximos do Brasileirão do mesmo ano, com 21 tentos (ao lado de Kleber Pereira e Washington). O centroavante foi outra aposta da Traffic repassada ao Palmeiras no início de 2009, mas, ficou pouco tempo e foi vendido por 15 milhões de euros, cinco meses depois. A exemplo de Henrique, não jogou uma partida sequer pelos blaugranas, dando início a uma série de empréstimos que o fizeram peregrinar por diversos clubes: Benfica, Fiorentina e Santos, onde segue apenas como uma pálida lembrança do técnico camisa nove que ajudou a subir o Coritiba de patamar.

O Coritiba também acabaria declinando após o acesso à elite em 2007, o título do Campeonato Paranaense de 2008 e a vaga obtida na Copa Sul-Americana, com o nono lugar da Série A. Sem títulos, o clube terminou 2009, ano de seu centenário, de forma triste: rebaixado em casa, com quebra-quebra dos torcedores do Coxa que os afastou por longo tempo do Couto Pereira. Só com Marcelo Oliveira é que o resgate do time à elite começaria novamente. Mas sem o toque caseiro tão marcante, como na última boa safra, em 2007.

Ficha técnica

Clube/seleção: Coritiba
Treinador: René Simões
Competição: Campeonato Brasileiro da Série B
Ano: 2007
Escalação: Edson Bastos; Henrique, Anderson Lima e Jéci; Túlio, Veiga, Pedro Ken, Ricardinho (Marlos) e Fabinho; Keirrison e Gustavo (Henrique Dias)