11.11.06

O cavaleiro de Manchester

Decididamente, o ano de 2006 tem sido o ano de comemorações especiais para os técnicos ingleses. Depois de Arsène Wenger comemorar 10 anos à frente do Arsenal, um outro técnico tem motivos em dobro para comemorar: Alex Ferguson está a frente do Manchester United há duas décadas! Ou seja, enquanto Wenger chegava ao Arsenal, Ferguson já estava no futebol inglês como técnico há 10 anos. Nem preciso dizer que é utopia total no Brasil, não é PC Gusmão?

A exemplo de Wenger, Ferguson é mais do que um simples treinador. É um exímio manager. Todas as contratações do United passam pelo seu crivo. E seu olhar clínico já fez estrelas brilharem no Old Trafford, tais como Eric Cantona, Paul Ince, Roy Keane, David Beckham, Ruud Van Nilsterooy, Cristiano Ronaldo, Paul Scholes, entre outros. Não é a toa que seu nome está no hall da fama do futebol inglês. Então, vamos conhecer um pouco mais da carreira desse excepcional técnico e vencedor.

A Carreira

Nascido em 31 de dezembro de 1941, em Glasgow, Escócia, Alexander Chapman Ferguson iniciou sua jornada no futebol como atacante. Ainda amador, começou a dar seus primeiros chutes pelo Queen’s Park, em 1958. Era considerado um atacante mediano, mas fez algum sucesso jogando no futebol escocês, de onde nunca saiu. Foi para o St. Johnstone, passou também pelo Dunfermline e de lá transferiu-se para o tradicional Glasgow Rangers por cerca de 65 mil libras, na época, a transferência mais cara entre dois clubes escoceses. Jogou também pelo Falkirk, onde começou a desenvolver seus primeiros trabalhos como treinador – mesmo atuando como jogador – até terminar sua carreira de atleta no Ayr United, em 1974, com apenas 32 anos.

No mesmo ano em que encerrou sua carreira de jogador, Ferguson foi dirigir o East Stirlingshire, mas não completou nem um ano à frente do clube, pois logo foi convidado para dirigir uma equipe mais estruturada, o St. Mirren.

Chegando ao St. Mirren, Ferguson desenvolveu um trabalho para levar a equipe ao acesso a primeira divisão escocesa. E conseguiu levar os Buddies até a principal divisão do país em 1977. Mas seu estilo linha dura perdurava e Ferguson começou a dar palpites até mesmo na mudança das tradicionais cores do time, o preto-e-branco. O episódio causou mal estar dentro do clube e Ferguson acabou por ser demitido em 1978. Demissão essa, que foi a única de sua carreira de treinador, que já perdura por mais de 32 anos.

No mesmo ano, ele foi contratado pelo Aberdeen, que a exemplo de hoje, mesmo com o domínio de Celtic e Rangers, era uma das principais equipes da Escócia. Logo no início de sua trajetória no Aberdeen, chegou a final de duas Copas Escocesas, mas o título lhe escapou nas duas oportunidades. Seu primeiro título não viria tarde. Ferguson levou os Dons a taça da Liga Escocesa, na temporada 1979/1980, o primeiro título de expressão da equipe em 25 anos (o último havia sido conquistado em 1955) e o primeiro da quebra de um tabu: nos últimos 15 anos, Celtic e Rangers alternaram-se na conquistas da Liga. E com Furious Fergie no comando do Aberdeen, a equipe escocesa viveu o principal momento de sua história. Até 1986, os Dons conquistaram mais duas Ligas consecutivas (de 1983 a 1985), a Recopa Européia, deixando pelo caminho tradicionais times como o Bayern Munique e o Real Madrid, na final disputada em 1983, uma Supercopa Européia, sobre o Hamburgo, também em 1983 e duas Copas da Liga escocesa. Até hoje, o Aberdeen é o único time escocês a conquistar duas competições européias.

Com a morte do técnico da Escócia, Jock Stein, Ferguson assumiu a seleção às vésperas da Copa de 1986. Após vencer a repescagem contra a Austrália, Ferguson não conseguiu levar a seleção muito longe na Copa do México. Foram apenas um ponto em três jogos (derrotas para Dinamarca e Alemanha Ocidental e empate contra o Uruguai) e Ferguson acabou deixando o comando da seleção.

Apesar do revés na Copa do Mundo, era óbvio que choveriam propostas para que ele galgasse degraus mais altos. Ferguson chegou a receber propostas do Arsenal, Tottenham, Rangers e até mesmo do poderoso Barcelona, mas Fergie optou por permancer no Reino Unido e aceitou uma proposta do Manchester United.

Mas o cenário em Manchester não era nada animador: a crise no time era grande, pois não conquistava títulos expressivos há tempos e a última crise havia culminado com a demissão do técnico anterior, Ron Atkinson. Furious Fergie tinha um clube em péssima fase, com muitos jogadores alcólatras. Apesar de recuperar alguns destes jogadores e faze-los produzir para o time, Ferguson conseguiu apenas uma modesta 11ª colocação na Liga em seu ano de estréia. Muito pouco para um time do porte dos Red Devils. Continuou a fazer campanhas modestas, salvo um vice-campeonato inglês em 1987/88. Demoraria quatro anos, como no Aberdeen, para que seu trabalho começasse a gerar frutos.

Mesmo com boas contratações para temporada 1989/90, como Paul Ince, por exemplo, o Manchester andava mal das pernas. E o trabalho de Ferguson começou a ser contestado pelos torcedores, imprensa e dirigentes. Muitos já pediam sua cabeça, pois em mais de três anos, não havia conquistado nada pelo clube. E o fundo do poço para Fergie viria em dezembro de 1989. O Manchester fechou aquele ano com oito jogos sem vitória (seis derrotas e dois empates). Ferguson afirma que “foi o período mais negro de sua carreira”.

Mas as coisas começariam a mudar em janeiro de 1990. O Manchester havia chegado a final da Copa da Inglaterra, contra o Nottingham Forrest, considerado favorito na época para papar a taça. Após empatar a primeira partida em 3 a 3, o técnico resolver sacar o goleiro titular do Manchester, Jim Leighton, por considerar que este não estava bem mentalmente e colocou em seu lugar Les Sealey. Um golpe de mestre. Sealey fechou a meta e o United levantou a taça, vencendo a segunda partida por 1 a 0. Era seu primeiro título nos Red Devils, em quase quatro anos à frente da equipe. Mas na Liga local, as coisas não andavam nada bem, pois o time havia sido apenas o 13º ao final daquela temporada.

No ano seguinte, Ferguson levaria o Manchester ao título da Recopa (que o treinador já havia ganho com o Aberdeen) ao bater na final o poderoso Barcelona de Ronald Koeman e cia., por 2 a 1. Mesmo com a conquista de título importante, ainda faltava conquistar a Liga Inglesa, que o United não vencia desde a temporada 1967/68. E conquista-la era a obsessão do treinador escocês. Em 1991/92, apesar da conquista da Copa da Liga, Ferguson não conseguia emplacar os Red Devils ao título do Campeonato Inglês. A equipe liderou grande parte da competição naquele ano, mas deixou o título escapar para o Leeds.

O ano da afirmação de Ferguson foi o de 1992. Por indicação sua, o United contratou o atacante francês Eric Cantona, junto ao Leeds. Cantona formaria com o galês Mark Hughes uma dupla de frente infernal, que tiraria o Manchester da fila de Campeonatos Ingleses, que perdurava por 26 longos anos. E Ferguson foi eleito o melhor treinador daquele ano, prêmio que dali para a frente, tornaria-se rotineiro em sua carreira vencedora. No ano seguinte, outro jogador importante da era Ferguson chegava a Manchester: o irlandês Roy Keane. E juntos, conquistaram o bicampeonato da Liga e venceram a Copa da Inglaterra, na temporada 1993/94.

Os talentos e os campeonatos começaram a brotar em Manchester. Após a perda de jogadores importantes, de suas mãos surgiram os jovens David Beckham, Phil e Gary Neville, Paul Scholes e Nicky Butt. E os “Franguinhos de Ferguson” levaram o time a conquista de mais dois campeonatos ingleses, em 1995/96 e 1996/97. Ferguson havia colocado novamente o Manchester United como o time a ser batido na Inglaterra.

E em 1998/99, o Manchester atingiu o melhor momento de sua história. Venceu a Liga Inglesa por um ponto, em disputa emocionante com Arsenal, a Copa da Inglaterra, sobre o Newcastle e a Liga dos Campeões sobre o Bayern, em jogo emocionante. O Bayer vencia por 1 a 0 até os 45 minutos do 2º tempo, quando dois gols foram marcados nos três minutos de acréssimo, por Teddy Sheringham e Ole Gunnar Solskaer. O milagre no Nou Camp, palco da final, coroou a “Trinca” do Manchester, que não vencia a mais importante competição de clubes da Europa desde 1968. O time ainda venceria o Palmeiras na Final da Copa Intercontinental por 1 a 0, fechando com chave de ouro o ano de 1999. Essa equipe já consagrava figuras como o goleiro Peter Schmaichel, Beckham, Scholes, Sheringham e Giggs, entre outros. O domínio vermelho de Manchester na ilha duraria mais duas temporadas, com o tricampeonato inglês (entre 1999 e 2001).

O equilíbrio doméstico que se seguiu a partir daí fez com que o domínio do Manchester caísse frente ao fortalecimento de times como o Arsenal e o Chelsea, mas é inegável dizer que Alex Ferguson recolocou o Manchester no caminho das glórias. O jogo de número 1000 de Ferguson à frente do United aconteceu na vitória sobre o Lyon por 2 a 1, em novembro de 2004.
Os números de Ferguson são realmente impressionantes. Até o início da temporada 2006/2007 ele havia liderado os Red Devils em 1070 jogos, conseguindo 612 vitórias (57,2%), 258 empates (24,1%) e apenas 200 derrotas (18,7%). Armou o time para marcar 1919 gols e sofreu 989. Estatísticas essas que comprovam que ele é o técnico britânico mais vencedor de todos os tempos e que também o coloca na galeria dos maiores vencedores de toda a Europa.

Na atual temporada, o Manchester já é o líder isolado do Campeonato Inglês, com jovens promessas como Rooney, Cristiano Ronaldo e Fletcher, mescladas a experiência de consagrados jogadores como Van der Sar, Ferdinand, Scholes e Giggs. E o Manchester novamente figura como um dos favoritos ao título, tanto no Inglês, quanto na Copa dos Campeões.

Nomeado com a Ordem do Império Britânico (OBE) e eleito seis vezes como o técnico do ano na Inglaterra, Alex Ferguson completou no último dia 6 de novembro, 20 anos à frente do Manchester. Mais do que todo esse tempo dedicado ao clube, ele reescreveu uma página na história do United, deixando-o novamente entre os principais times europeus na atualidade. Sem citar aqui o trabalho sensacional que ele desenvolveu no mediano Aberdeen, que após sua saída nunca mais conseguiu ser o mesmo.

Muitos defendem que o estilo durão é ultrapassado para o futebol moderno. Técnicos como Ferguson provam o contrário. Famoso por mexer com o brio dos jogadores e adotando o estilo “linha-dura”, o treinador escocês fez e faz história. Treinadores como ele fazem falta ao futebol, pois numa modalidade onde o estrelato influencia tanto os jogadores, um treinador como ele baixa os egos em um nível aceitável. Acho que não necessitamos tanto de treinadores-psicólogos, mas sim de grandes tácticos que também sejam “paizões”. Daqueles que sejam duros sempre que necessário, mas que reconheçam os méritos de seus pupilos e que ao mesmo tempo, saibam como administrar um elenco, dentro e fora das quatro linhas. Os súditos do Manchester United curvam-se a Sir Alex Ferguson, duas décadas de bons serviços prestados.

Perfil:

Nome Completo: Alexander Chapman Ferguson
Nascimento: 31 de dezembro de 1941, em Glasgow, Escócia
Apelidos: Furious Fergie
Clubes: Como jogador – Queen’s Park (1958–1960), St. Johnstone (1960–1964), Dunfermline (1964–1967), Glasgow Rangers (1967-1969), Falkirk (1969-1973) e Ayr United (1973-1974). Como treinador – East Stirlingshire (1974), St. Mirren (1974-1978), Aberdeen (1978-1986) e Manchester United (desde 1986)
Títulos: 3 Ligas Escocesas
4 Copas da Escócia
8 Ligas Inglesas
5 Copas da Inglaterra
2 Recopas Européias
1 Liga dos Campeões
1 Mundial Interclubes

4 comentários:

Uilians Uilson disse...

Belo post, embora esteja um pouco grande para os padrões da net. Eu acho que a permanência de um técnico num clube é vital para o sucesso de um elenco, mas 20 anos é demais. Acho legal para os padrões ingleses, mas não gostaria que esse exemplo fosse copiado por aqui. Com técnicos sempre a perigo, campeonatos com finais e craques aos montes são elementos que fazem a graça e a característica do futebol brasileiro...

Passe no Palavras Certas e leia o posto Até você, Itália?
http://certas.blogspot.com

Um abraço e sucesso

Armando disse...

Realmente o post está bastante completo, mas sinceramente também acho que um post deste tamanho não se encaixa nos padrões de um blog.
Apesar do texto estar ótiimo ele se torna cansativo la pela metade.
De resto só tenho que deixar os parabéns pela qualidade do blog que melhora a cada dia...
grande abraço a todos...

Felipe Leonardo disse...

Muito bom, André!
Realmente, Alex Ferguson já está na história do futebol mundial por seus feitos no Manchester.

Um Abraço, Felipe Leonardo

Rakal D'Addio disse...

Gostei do texto.

O The Guardian publicou na semana passada uma série de declarações de Ferguson, dentre outras, uma me chamou a atenção.

Questionado se tivesse uma bala no tambor do revólver, em quem dispararia, Wenger ou Victoria Beckham, o treinador soltou:

"Não posso ter duas balas?"