30.3.11

Elite do futebol ou futebol da elite?

Enquanto metade dos clubes do antigo Clube dos 13 (Santos, Corinthians, Vasco, Grêmio, Cruzeiro, Goiás, Coritiba, Sport e Vitória e Bahia) já anunciou acerto individual com a Rede Globo para a transmissão do Brasileirão nos próximos anos – contrariando o acerto coletivo da entidade com a Rede TV –, a Espanha parece caminhar para outro nível do acerto individual de cotas (e, porque não, de uma possibilidade futura por aqui): a maioria dos clubes da liga espanhola (Liga BBVA) exige nova negociação dos direitos, que envolve maior cota oriunda de casas de apostas e o fim de uma lei federal que estabelece a transmissão de uma partida na TV aberta por rodada. O grupo alega que está perdendo dinheiro, já que poderia negociar essas partidas com as redes de TV fechada.

Para isso, a LFP (Liga de Fútbol Profesional) queria fazer uma paralisação do torneio neste final de semana (nos dias 2 e 3 de abril, em período convenientemente chamado de “folga” pelo presidente da entidade, o advogado José Luis Astiazarán). Contrários a resolução e aos termos estabelecidos, Villarreal, Sevilla, Athletic Bilbao, Zaragoza, Espanyol e Real Sociedad entraram na Justiça espanhola e conseguiram impedir a paralisação, garantindo a realização dos jogos. O irônico é que a própria LFP foi ferrenha adversária quando a associação dos jogadores espanhóis (AFE) pediu o adiamento dos jogos do último dia 2 de janeiro, um domingo, na esteira de comemoração do Ano Novo. Aquela jornada foi mantida, com Astiazarán dizendo em “manter o calendário acertado desde junho de 2010”.

Como levantou Erich Beting em seu blog Negócios do Esporte, a Espanha é a única das consideradas ligas de ponta da Europa (ao lado de Inglaterra, Itália, Alemanha e França) em que os clubes negociam os direitos de televisão individualmente. Dos 550 milhões de euros negociados com os 20 clubes até 2015, Real Madrid e Barcelona abocanham 300 milhões, 54,54% do valor total. A discrepância econômica acaba prejudicando a parte técnica. Com menos dinheiro para investir em infraestrutura e reforços, o duo de rivais está muito distante das outras agremiações. Em 2010/11, até a 29ª rodada, O Barcelona liderava o torneio com 78 pontos, cinco de vantagem sobre o Real e 24 diante do terceiro e quarto lugares, Valência e Villarreal (54). O Espanyol, rival catalão do Barcelona, é o quinto, com apenas 43 pontos. Em 2009/10, o Barça foi bicampeão espanhol com 28 pontos sobre o terceiro lugar. Em 2008/09, a vantagem culé era de 17 pontos (em ambos, o Real foi vice).

Com o país à beira de um recesso econômico (segundo a Folha de S.Paulo, 20% da população economicamente ativa ficará sem emprego) e com eleições regionais marcadas para o próximo dia 22 de maio, parece difícil o governo e a LFP costurarem tal acordo, que só deixaria como opção de transmissão para a TV aberta os jogos da Copa do Rei (torneio secundário no país) e as partidas de Champions League e Europa League, subsidiados pela Uefa, acentuando a elitização nas transmissões do futebol. Na contramão das ligas mais poderosas, que lucram com campeonatos mais técnicos e montantes maiores aos clubes pagos pelos direitos de arena (somente a Ligue 1 francesa recebe menos que a Espanha) e até mesmo das seleções europeias, que outorgaram à Uefa a negociação coletiva das partidas da Euro-2016 e das Eliminatórias do continente para a Copa de 2018, com o objetivo de captar mais dinheiro para as federações nacionais.

Como postado aqui, a Argentina radicalizou “ao contrário”, estatizando todas as transmissões esportivas (já era assim com o futebol), o que favorece aos cidadãos, mas pode ser um precedente perigoso nas mãos do governo Cristina Kirchner, no sentido de controle dos meios. E a situação do futebol espanhol, que precisa se reformular quanto aos direitos de TV, pode servir de alerta ao Brasil, num futuro próximo, já que os clubes caminham para fechar acordos individuais. Em um Brasileirão, com todos os seus defeitos de gestão, que prima pelo grande equilíbrio entre os grandes clubes, a soma de má gestão e maus resultados em campo pode causar um fenômeno semelhante ao do país ibérico (mesmo com as realidades distinta entre os clubes), que é tão apaixonado ao futebol quanto nós somos por aqui.

Um comentário:

Lucizano disse...

Como postei no blog esses dias, o modelo que acho mais justo é o inglês. Lá o valor é divido de forma clara e coloca times pequenos com boa porcentagem do valor acertado. Para simplificar, imagine que o triênio do Brasileiro fique em 100 milhões de reais. Deste valor, 50% é dividido entre os 20 clubes, 25% distribuídos segundo o desempenho no ano anterior e 25% disseminados pelos mais populares de acordo com a audiência.

Na Espanha só Barcelona e Real fazem dinheiro.