19.11.08

Sinônimo de Churrasco

Que a Seleção perdeu muito da identificação com o torcedor comum, pra mim isso parece claro. E a tietagem de torcida e imprensa sobre Cristiano Ronaldo é apenas mais uma das pontas desse iceberg. Muitos foram ver o treino da Seleção para o amistoso contra Portugal, mas fizeram questão de ficar para ver o gajo treinar, recebê-lo no aeroporto, gritar por ele e etc.

Muitos podem dizer que é o bombardeio excessivo da mídia esportiva sobre o futebol europeu. Mas e a falta de identificação dos torcedores nacionais para com seus principais jogadores? Os jogadores deixam os clubes tupiniquins cada vez mais precoces, não dando margem a “identificação” com os torcedores. Times brasileiros são remendados a cada janela de transferências e o Campeonato Brasileiro – mesmo competitivo – fica ao Deus dará.

No evento em que estivemos ontem, na comemoração ao 10º aniversário do Trivela em São Paulo, uma colocação muito interessante foi feita pelo Lédio Carmona, um dos nomes presentes na mesa-redonda reunida para o evento: além do torcedor se importar mais com o seu clube de coração do que com o Brasil, não existe mais aquele orgulho de ver o craque do seu time vestindo a amarelinha. Antigamente, o torcedor batia no peito, dizendo que o clube X forneceu tantos jogadores pra Seleção campeã do mundo. O Juca Kfouri deu um exemplo feliz: na Seleção de 70, o Rivelino do Corinthians era importantíssimo, o Tostão do Cruzeiro era o motor e o Pelé do Santos era o craque em campo. Hoje em dia, é o Kaká ou Ronaldinho do Milan, o Robinho do Manchester City e o Lúcio do Bayern – devidamente noticiados e televisados. Quando convocam um jogador do futebol brasileiro, o torcedor chia porque ele vai ficar fora do jogo decisivo, vide o caso do Alex do Inter, que fica de fora do duelo decisivo contra o Chivas pela Sul-Americana. "Méritos totais" dessa situação para a CBF, personificado em Ricardo Teixeira. Algo que talvez nem uma Copa do Mundo no Brasil parece reverter a curto prazo, pelo menos.

Os últimos jogos amistosos com mando brasileiro – por contra de um contrato nebuloso da Nike com a não menos nebulosa CBF – foram disputados no Emirates Stadium, do Arsenal; ingressos dos jogos do Brasil custam quase um terço do salário mínimo; jogadores que, em sua maioria, vêem a Seleção como um trampolim para um bom contrato no Eldorado europeu. A descrença com um time de tantos pontos negativos - e, some-se a isso, a aposta em um técnico totalmente despreparado - agrava ainda mais um situação que é já é crônica. Mesmo com a paixão inabalável do brasileiro, de todas as classes sociais, pelo futebol como evento e acontecimento.

Por isso, o brasileiro não é tão nacionalista como o uruguaio, o argentino ou o inglês, por exemplo, quando se trata do escrete nacional. E a nova geração prefere idolatrar um Cristiano Ronaldo do Manchester do que o Alex – que sabe-se lá até quando fica no Brasil. Como disse Maurício Noriega, no mesmo evento do Trivela, mencionando uma conversa com um adolescente: “Seleção é legal na Copa do Mundo, quando dá pra reunir os amigos pra beber e fazer churrasco”.

3 comentários:

Arthur Kleiber disse...

Só pq tava todo mundo metendo o pau, resolveram jogar bola... mas Portugal está numa fase que não ganha nem da Albânia...

Fábio Leopissi disse...

Eu acho que brigar com a economia mundial é impossível. Vejo que o máximo que pode ser feito é igualar os calendários para não haver a debandada no meio da competição... do restante, não dá para amarrar os jogadores nos pés das traves nacionais.
Sobre os gritos ao cristiano ronaldo, não vejo problema nenhum... Qd os brasileiros jogam contra seleções em qualquer lugar o mundo, nossos jogadores também são ovacionados.
Devemos parar com essa jornalismo do terror estilo Notícias populares.

E pra não esquecer: Adeus Dunga!!!

Breiller disse...

Bom, André, é uma questão de ponto de vista, mas acredito eu que esse orgulho romanesco de se torcer por uma seleção não foi perdido só no Brasil, mas sim pelo mundo todo.

O argentino, que é tipo pelos brasileiro como o torcedor mais apaixonado, torce igual nós torcemos: quando o time vai bem. É só a coisa apertar que eles também criticam, perdem as esperanças, dizem que o futebol morreu e por aí vai. A própria época de declínio da Argentina nas eliminatórias, e a consequente queda do Alfio Basile, são provas de que a paixão e o nacionalismo dos argentinos não são tão inabaláveis assim.

Lá eles também vibram mais por seus clubes do que pela seleção albiceleste. E isso acontece em outras partes do mundo: Espanha, Alemanha, Inglaterra...

Pelo fato de, hoje, o futebol ser tão globalizado, a questão das identidades regionais e nacionais bem demarcadas foi sendo suprimida por uma identidade mais global. Se a gente aplaude o Cristiano Ronaldo aqui, é porque a gente o vê jogar - e brilhar - todo o final de semana pela TV. Não é porque não sentimos mais orgulho dos nossos craques. O fato é que, antigamente, o povo via apenas Garrincha e Pelé no final de semana e já se dava por satisfeito. Hoje, vemos Messi, Lampard, Kaká, Robinho, Adebayor, todos envolvidos em contextos muito parecidos e disponíveis aos olhos dos admiradores do futebol.

Lembro, em 98, quando o Brasil perdeu a Copa pra França, que muitos diziam que a Seleção era comprada pela Nike e que ninguém mais voltaria a sair nas ruas para vibrar pelo país do futebol. E não é que ganhamos em 2002 e saímos todos às ruas para festejar a conquista?

Torcedor nunca perde o prazer de torcer, em qualquer lugar do mundo. Mas torce, mesmo, é quando o time ganha!