13.7.08

Escravidão no futebol

“No futebol há uma intensa escravidão moderna em relação a transferência ou compra de jogadores. Isso não é bom para o futebol. Eu sempre estou do lado do jogador e se ele quiser ir embora é necessário que seja liberado. Estamos trabalhando para intervir nesses casos e defender os jogadores”.

Pois essa foi a pérola que soltou o presidente da FIFA, o suíço Joseph Blatter, alimentando a polêmica em torno da transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid. Lamentável o comentário deste senhor. Até Pelé, conhecido pelos seus feitos magistrais dentro de campo e por declarações infelizes fora dele, discordou.

Queria eu ser escravo ganhando os milhões que devem entrar na conta bancária do craque português todos os meses. Duro mesmo deve ter sido para os descendentes de escravos ouvirem isso, ao imaginar essa comparação.

Obviamente, o Manchester United foi rápido na resposta: “Todos os nossos jogadores, como em outros clubes, se comprometem com seus contratos através de uma negociação aberta e livre”, explicou por meio de um porta-voz. William Gaillard, assessor especial do presidente Michel Platini e diretor de comunicações da Uefa, ainda complementou: “Seria conveniente lembrar a todos que os escravos, em todos os sistemas de escravidão, nunca receberam um salário. E parece que os dois clubes estão negociando a saída do jogador antes do fim do contrato”, argumentou.

Nem é preciso falar muito mais. Quando um clube investe no jogador, e lhe oferece salários astronômicos, obviamente que a multa rescisória do contrato é alta. Se o atleta não quer ficar preso ao clube, que faça um contrato com duração menor e vencimentos também menores. Mas aí ninguém quer. Na hora de encher o bolso, tudo é perfeito. Claro que a vontade do jogador é importante, mas ele tem de estar ciente disso quando assina seus contratos. Se o Real Madrid que contrata-lo, é simples: basta pagar a multa, prevista no contrato.

Será esse o próximo uniforme do português?

Mas essa já tem sido uma prática corrente no clube merengue. Foi assim com tantos outros. O clube entra em contato com o jogador, sem o conhecimento do clube, e faz uma proposta milionária, seduzindo o atleta. Depois de tudo acertado, aí procura oficialmente o clube do atleta. Vai sendo criada uma situação que chega a ficar insustentável, e o clube fica sem opção a não ser vender o seu craque. Foi o que aconteceu com o Zidane, por exemplo.

O mesmo acontece em relação aos clubes brasileiros. O mais recente exemplo tem sido com Hernanes, jogador do São Paulo. O Barcelona oferece a metade da multa rescisória ao Tricolor, mas já tem tudo acertado com o jogador. O São Paulo não quer liberar, mas o jogador já fica com o pensamento lá na Europa. Um clube que agiu corretamente foi o Santos, segurando o Robinho até o Real (sempre ele) pagar todo o valor estipulado no contrato (o santista ainda teve que abrir mão de sua parte para acertar a transferência).Mas pra quem acha que isso só acontece aqui, estamos vendo que mesmo entre os poderosos clubes europeus esta “tática” é usada. A diferença é que o Manchester é o Manchester, um dos clubes mais ricos do mundo, é briga de cachorro grande. Já o São Paulo é só mais um time brasileiro.

5 comentários:

André Augusto disse...

Além do investimento no jogador para adquirir seus direitos, há toda uma estrutura de marketing prejudicada. Infelizmente, Blatter sempre se mostra um duas-caras. No episódio dos jogos na altitude, primeiro falou que era a favor e agora é contra...

Bruno Pinto disse...

Estou completamente de acordo com este texto. Blatter já é um habitual a dizer asneiras. Desta vez, apenas lhes deu seguimento, mostrando que é um homem pouco sensível para a problemática do futebol, logo não merece nem é competente para o cargo que ocupa.

Em relação ao tema particular de Cristiano Ronaldo, devo dizer que o considero actualmente o melhor jogador do mundo e sou admirador do seu talento irresistível. No entanto, confesso que a sua postura ultimamente me tem desiludido bastante. Acho que precisa de amadurecer. Mesmo que tivesse o desejo, legítimo, de sair para Madrid, deveria ter mais respeito pelo Manchester United, que lhe paga principescamente. Além disso, os contratos são para cumprir. No lugar do United, não vendia e ponto final. Ronaldo só tem de jogar e justificar aquilo que recebe e não andar com afirmações de gosto discutível. Ele e todos os outros.

Levy Lopes Furtado disse...

Os jogadores de futebol, em sua maioria, são mal orientados do ponto de vista de condução de carreira por empresários que só querem tirar o percentual deles seja com o time A, B ou C. E os jogadores para adquirirem logo a sua "independência financeira" fazem tudo o que esses mesmos empresários querem de olhos fechados. Até porque alegam querer se concentrar somente no futebol. E nos prazeres que esse dinheiro proporciona.

Anônimo disse...

Fala, Arthur!

E o pior é que, quando tem essa tal "janela", a imprensa só fala nisso, com suas especulações e tudo mais. Que acabe logo essa porcaria de janela!

Grande abraço, não deixe dar uma passadinha em nosso blog: www.esportejornalismo.blogspot.com.

Unknown disse...

Mais uma vez Blatter demonstrou que não entende nada de futebol; como bem dito por vc, contratos existem para serem cumpridos e as multas para serem executadas caso isso não ocorra.
Parabéns André por realmente exercer o título de seu blog e expressar sua opinião não apenas divulgado notícias e resultados de jogos como acontece na maioria dos blogs sobre este assunto.


Monica
http://monicaprosaepoesia.spaceblog.com.br