9.7.09

Faca, queijo e canja de galinha na mão

Uma final com o espírito de Libertadores: muita disputa, algumas boas jogadas, a tradicional catimba e um soco do botinudo Schiavi no esforçado Wellington Paulista. Com Fábio pegando tudo, pressão inicial do Estudiantes e um gol incrível perdido por Kléber quando o Cruzeiro jogava melhor no quarto final da partida, a equipe Celeste leva uma enorme vantagem para Belo Horizonte. E está mais perto do tricampeonato do que os Pinchas do tetra. Jogando em casa e com o histórico de seis vitórias em seis partidas dentro do Mineirão nesta edição – uma delas diante do próprio Estudiantes, pela fase de grupos – o Cruzeiro de Adillson Batista é mais técnico, tem um time bem postado e jogadores em boa fase, casos de Fábio e Kléber, que parece talhado a jogar competições do quilate de uma Libertadores da América.

Mesmo não tendo uma defesa brilhante – apesar de não ter sofrido gols em casa nessa Libertadores – o Estudiantes está longe de ser um time ingênuo. Schiavi e Boselli já sentiram o gosto de campeões sulamericanos, na época de Boca Juniors. Andújar – vendido ao Catania – é bom goleiro e Verón, no alto de sua experiência, ainda pode desequilibrar, assim como seu pai o fez na época do tricampeonato continental dos Pinchas, entre 1968 e 1970. La Brujita tem motivação sobrando para trazer um título que a equipe de La Plata não vê há quase 30 anos.

Apesar da ótima vantagem, o oba-oba e o nervosismo podem pesar contra. Como exemplo, podemos citar o Palmeiras de 2000, que conseguiu bom empate por 2-2 na Bombonera e sucumbiu nos pênaltis dentro do Morumbi, e o São Caetano, que obteve ótima vantagem de 1-0 diante do Olímpia no Defensores Del Chaco e depois sucumbiu ante os paraguaios no Pacaembu, também nos pênaltis. Com a bola no chão e sem entrar na tradicional catimba argentina, o Cruzeiro é mais time. Mas como diria aquele ditado: cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

O grande perdedor

Na 50ª edição da tradicional Copa Libertadores, a Confederação Sulamericana de futebol sai como grande perdedora. Além da omissão nos episódios causados pela “gripe suína” – que acabou resultando na exclusão dos times mexicanos e nas vistas grossas aos argentinos – o fato da entidade não possuir uma cláusula obrigatória de transmissão integral da mais importante competição de clubes do continente é bola fora. Desvaloriza a competição enquanto produto e mostra nenhuma visão de mercado, ao contrário do que acontece numa Champions League, por exemplo. Se fosse melhor explorada, com certeza a Libertadores seria vista com outros olhos fora da América do Sul. Inclusive pelos próprios mexicanos, maiores prejudicados desta edição. Erich Beting fez um excelente post em seu blog sobre o assunto "Culpa da Globo ou da Conmebol?", que mostra que a culpa da grande final não ser transmitida em rede nacional não é só culpa da vênus platinada e sim que o buraco é bem mais embaixo.

Visões sobre a primeira partida da finalíssima nos blogs Marcação Cerrada e Impedimento.

6.7.09

Êxodo da legião holandesa

Com a chegada de Cristiano Ronaldo e Kaká, os holandeses do elenco merengue certamente vão perder espaço na equipe de Pellegrini.

Quase 200 milhões de euros em quatro reforços. A megalomania de Florentino Pérez à frente da presidência do Real parece não ter limites. As vindas de Albiol, Benzema, Kaká e Cristiano Ronaldo foram dignas de cinema, como pôde ser visto na apresentação dos dois últimos. Tratam-se de jovens jogadores, todos destacados e talentosos nas suas ex-equipes. Com status e futebol de titulares, alguém vai pagar o pato para que os “novos galácticos” entrem. Sobrou para a ala holandesa do elenco merengue. Atualmente, seis jogadores dos Países Baixos estão no elenco do Real: Drenthe, Sneijder, Van der Vaart, Robben, Van Nistelrooy e Huntelaar. Perdendo apenas para os espanhóis da equipe – atualmente, 11 – nenhum deles é titular absoluto da equipe. Pela Oranje, na última convocação nos jogos das Eliminatórias européias para a Copa, Robben, Van der Vaart e Huntelaar foram chamados. Sneijder só ficou de fora por conta de contusão no fim da temporada, mesmo motivo pelo qual Nistelrooy não foi lembrado pelo técnico Bert van Marwijk. A mesma Oranje foi semifinalista da última Eurocopa e se classficou antecipadamente ao Mundial da África do Sul, com uma campanha de 100% de aproveitamento, até aqui.

Tratam-se de bons jogadores e que chegaram com alguma badalação no Santiago Bernabéu. O jovem Drenthe – destaque no Europeu sub-21 de 2006 – não vingou na lateral, nem na meia esquerda. Sneijder, Van der Vaart e Robben não mostraram a regularidade vista em seus ex-clubes e na seleção. Van Nistelrooy foi peça importante do Real no bicampeonato espanhol conquistado entre 2006 e 2008. Mas o atacante – que marcou 45 gols em 67 jogos com a camisa blanca – sofreu grave contusão no joelho em novembro de 2008. A expectativa mais otimista é que ele volte em nove meses. Há de se considerar ainda o fato de Ruud ser um atacante em idade avançada, 33 anos. O técnico chileno Pellegrini conta agora com Higuaín, Benzema, Raúl – que também pode jogar na meia – e com a opção de usar Ronaldo como atacante,. Por conta disso, acho difícil que o experiente matador holandês tenha espaço no novo Real Madrid. Assim como o jovem Huntelaar, que não correspondeu a fama adquirida no Ajax.

Também se especula que para trazer outros reforços, o Real poderia usar Sneijder e Van der Vaart como moeda de troca. Robben parece que permanece, mas como opção no elenco. Além de um eminente final da legião holandesa, outro que surge como grande incógnita para o futuro é Raúl. O lendário meia-atacante, de 32 anos recém-completados e ícone contemporâneo da história merengue, não tem mais o vigor de antigamente. Nesta última temporada, Schüster e Ramos – técnicos que passaram pela equipe em 2008/09 – deixaram o camisa sete por diversas vezes no banco, tanto por limitações físicas como por opção tática. A chegada dos jovens e galácticos Kaká, Ronaldo e Benzema certamente fará com que Raúl perca ainda mais espaço entre os titulares.

A decisão final estará com Pellegrini e teremos um esboço durante a pré-temporada que se iniciará na próxima semana, em Dublin. Alguns amistosos entre julho e agosto na Europa e América do Norte servirão para o que o técnico chileno faça com que os galácticos comecem a render tudo o que se espera deles. E o enginero – como é conhecido Pellegrini – terá de fazer jus ao apelido para administrar o elenco milionário e o ego de seus comandados com precisão. Ou o entrosado rival Barcelona pode reinar novamente na Europa.

4.7.09

Última chamada para Owen

Imagino que a maior lembrança de Michael Owen para os brasileiros seja daquele garoto que marcou o gol da virada contra a Argentina na Copa de 1998, onde ele recebeu na meia, deixou dois argentinos para trás e bateu o goleiro Roa, decretando a virada daquela partida que terminaria empatada e a seleção albiceleste levaria nos pênaltis, avançando às quartas. Os torcedores ingleses, ao mesmo tempo em que culpavam Beckham pela expulsão naquele jogo – crucial para que a Inglaterra não vencesse – reverenciavam o feito do jovem atacante do Liverpool, à época com apenas 18 anos. Além de esperança no English Team, também era esperança no Liverpool, que ainda vivia um tempo de vacas magras, com poucos títulos de expressão.

Jogando sempre em meio a elencos nem tão estelares, Owen era a estrela dos Reds. Foi artilheiro da Premier League em 1997/98 e 1998/99, ambas com 18 gols. Cada vez mais importante na Inglaterra e no Liverpool, atingiu seu auge em 2001, quando liderou sua equipe rumo à conquista da Copa da Inglaterra, Copa da UEFA e Copa da Liga Inglesa, além de marcar três gols sobre a Alemanha jogando no Estádio Olímpico de Munique, em jogo válido pelas Eliminatórias para a Copa de 2002. De quebra, foi eleito o Bola de Ouro na Europa naquele ano.

Nas sete temporadas como titular absoluto do Liverpool, o então camisa dez sempre foi o artilheiro da equipe. Mas com a saída do técnico Gérard Houllier, ao final da temporada 2003/04 e vislumbrando ganhar títulos de expressão, Owen deixou o Liverpool para se transferir ao Real Madrid, em agosto de 2004. Ironicamente, o novo técnico Rafael Benítez montou a equipe que seria campeã da Champions na temporada em que Owen amargou o banco no Santiago Bernabéu. Deixou Merseyside como o sétimo maior artilheiro da história do clube – 158 gols em 297 partidas – além de uma série de recordes. Mesmo sendo um reserva de luxo nos merengues, anotou 16 gols em 2004/05 e resolveu voltar ao futebol inglês na temporada seguinte, para o Newcastle. Nos Magpies, as contusões passaram a ser mais frequentes. Ainda assim, acabou no elenco da Inglaterra para Copa de 2006, onde sofreria a contusão mais grave de sua carreira, na partida contra a Suécia: ruptura nos ligamentos do joelho direito, a qual deixou o jogador por mais de ano fora dos gramados. Sua passagem pelo Newcastle culminou com o rebaixamento da equipe à segunda divisão em 2008/09, onde claramente não era mais o jogador brilhante de outrora tanto por conta de suas limitações físicas, quanto da limitação técnica de sua equipe.

Sondado por alguns pequenos e médios ingleses, Alex Ferguson viu em Owen, 29 anos, uma chance de reforçar o elenco do Manchester United, muito enfraquecido pelas perdas de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid e Carlitos Tevez, ainda sem destino certo. O eterno prodígio chegou a custo zero e aceitou a proposta sem pestanejar: "É uma oportunidade fantástica para mim, e pretendo agarrá-la com as duas mãos. Agora estou ansioso por ser um jogador do Manchester United, e tenho a sorte de já conhecer vários dos jogadores que estão aqui. Perdi a última pré-temporada e estou feliz por começar desde o primeiro dia o trabalho em Carrington", afirmou ao site oficial do Man Utd., de acordo com a Trivela.

Obviamente, Owen não chega para suprir as ausências de Ronaldo e Tevez, até por conta de suas limitações físicas. Mas uma chance nos Red Devils é tudo que ele precisa para descobrir se ainda pode ser útil ao futebol e ao English Team, que ainda carece de atacantes, exceção feita a Wayne Rooney, que será um de seus colegas de elenco. Ferguson é treinador experiente e tarimbado e com certeza, experimentará Owen gradativamente até sua confiança retornar inteiramente. Ainda assim, mesmo com as aquisições de Owen e do equatoriano Valencia, o Manchester United ainda precisará se reforçar muito se quiser manter sua hegemonia na Inglaterra e continuar como uma das melhores equipes da Europa.

2.7.09

Perder para ganhar

Corinthians tricampeão da Copa do Brasil: a calma que faltou em 2008, sobrou em 2009

Embrião do time tricampeão da Copa do Brasil, o Corinthians vice-campeão de 2008 fez muito bem a lição de casa no torneio seguinte: não entrou na pilha de nervos e da euforia de um bom resultado conquistado em casa. O clima criado na Ilha do Retiro para aquela final era tão efervescente quanto a final desta quarta, disputada no Beira-Rio. Assim como Corinthians e Inter em 2009, Corinthians e Sport quase que se equivaliam dentro do campo de jogo, tecnicamente falando. No entanto, o time de Mano Menezes não teve calma para controlar aquele jogo, segurar o ímpeto dos pernambucanos e não ficar limitado à defesa, com chutões e faltas bobas.

Em meio ao clima desfavorável e tenso – em grande parte, causado pelo infeliz episódio do DVD "criado" por Fernando Carvalho – o Corinthians se portou com maestria. Não entrou na pilha do Colorado, não deu pontapé e nem se limitou apenas ao campo defensivo. Mesmo com um Inter aquém da sua capacidade, principalmente no primeiro tempo, era raro ver o alvinegro dando chutões. O excelente meio-campo se fez notar e era muito freqüente vê-lo valorizar a posse de bola e jogar objetivamente. Chutão só quando realmente necessário. Maior prova disso foi o gol de André Santos, nascido sob uma série de passes que envolveram a defesa colorada, o que abriu o lado direito guardado pelo zagueiro-lateral Bolívar.

No bom time do Inter, vi muito dos erros do Corinthians da Copa do Brasil de 2008 e das Libertadores de 2006 e 2003: um time preocupado em tentar catimbar, ganhar a arbitragem no grito e excessivamente nervoso, motivados pelo clima extra-campo. Na expulsão de D’Alessandro, a maior prova de maturidade. A equipe não entrou na catimba do bom meia argentino. Coisa que não aconteceu com Wellington Saci no ano passado, expulso infantilmente em Recife. Méritos para Mano Menezes – o grande arquiteto desse Corinthians do resgate e que soube armar o time -, e da diretoria, que evitou o confronto com os dirigentes colorados, quando todas as evidências sugeririam o contrário.

Venceu a mentalidade coletiva, que colocou a bola no chão e soube neutralizar o ímpeto do bom time do Inter, assim como havia feito na reta final do Paulistão, frente a São Paulo e Santos. Em um time onde Ronaldo – que ficou devendo na segunda partida, após ser decisivo na primeira – atrai naturalmente a maioria dos holofotes, Mano soube implantar um estilo operário a jogadores até então “comuns” no futebol brasileiro, casos de Jorge Henrique, Elias, Cristian e Alessandro, aliado à técnica de Chicão, André Santos, Douglas, Dentinho e do próprio Ronaldo. E um jogador, em especial, deu a volta por cima após o fiasco de 2008: o goleiro Felipe – que falhou em Recife - mostrou excelente forma neste primeiro semestre e vem se consolidando como um dos melhores do país em sua posição, ao lado de Victor, Fábio e Marcos. A cidade que viu o Corinthians, por conta de sua incompetência, cair para a Segundona há exatos um ano e sete meses foi testemunha da confirmação da volta por cima deste time, deixando de vez para trás o rótulo de “time de Série B”.

Encerro este texto com uma frase do post “Apoteoses”, publicado neste blog acerca das impressões da final da Copa do Brasil 2008, resume que na maioria das vezes o continuísmo na comissão técnica é o caminho para se montar times que estarão sempre na luta por títulos: “E se tudo correr racionalmente, Mano Menezes é técnico para marcar época e ficar por alguns anos dirigindo o Corinthians”.

Em tempo: Este é o post de número 500 da história de quase três anos do Opinião FC. Que venha o post MIL!

1.7.09

A capital do futebol brasileiro

Nesta quarta e quinta-feira, todos os olhos se voltarão para Porto Alegre. Mui leal e Valerosa, a capital gaúcha receberá os dois jogos mais decisivos do futebol brasileiro no primeiro semestre que se encerra: Internacional X Corinthians, pela finalíssma da Copa do Brasil, e Grêmio e Cruzeiro, que duelam para decidir quem chega à final da Libertadores, onde qualquer equipe classificada tem grandes chances de ser o soberano das Américas. Em campo, as potências regulares do futebol brasileiro na atualidade: São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

Em comum, além da cidade-palco e de todos contarem com reforços vindos da Seleção campeã na África do Sul, muitas polêmicas, que apimentam ainda mais a disputa entre essas quatro equipes, que a meu ver são as melhores do Brasil na atualidade. O episódio das arbitragens, a qual traz à tona velhas feridas entre Inter e Corinthians – os Brasileiros de 1976 e 2005 – promete ferver ainda mais o caldeirão do Gigante da Beira-Rio. O tal DVD sobre possíveis favorecimentos ao Corinthians, além de tumultuar e pressionar a arbitragem, pode dar um quê de violência a peleja. E da mesma forma, pode ser usada como incentivo, tanto para o Colorado quanto ao Timão.

No caso de Grêmio e Cruzeiro – dois dos grandes especialistas em embates mata-mata do futebol brasileiro – a rivalidade para o jogo decisivo é de data mais recente: a suposta ação racista do argentino Máxi Lopez, do Grêmio, para com Elicarlos, do Cruzeiro. Declarações polêmicas de Autuori e Souza contrastam com a indignação de atletas cruzeirenses com o suposto ocorrido, como Wagner e Kléber. Este último, de temperamento instável e talento inegável, pode facilmente ser envolvido ou desencadear uma ação violenta na decisão. É só puxar sua ficha corrida. Ou decidir o jogo favoravelmente à Raposa.

Se as polêmicas – alimentada desnecessaria e exageradamente – não entrarem em campo, os jogos têm tudo para serem os melhores do ano, os mais brigados e emocionantes. Os anfitriões gaúchos têm a difícil missão de reverter uma vantagem de dois gols. Dois a zero pro Grêmio basta. Para o Inter, leva a uma decisão por pênaltis. Não levar gol é primordial para o êxito dos rivais sobre os forasteiros. No entanto, Cruzeiro e Corinthians sabem jogar fora de seus domínios, graças aos seus treinadores copeiros e oriundos da escola gaúcha: Adílson Batista e Mano Menezes. E sabem jogar com a vantagem embaixo do braço. O Corinthians foi batido somente três vezes fora de casa – duas com o time misto ou reserva – e os cruzeirenses só foram derrotados uma vez nesta Libertadores e empataram outra, vencendo as outras nove partidas. Mas a única derrota cruzeirense na competição foi para o Estudiantes, por acachapantes 4-0. Enquanto isso, o Colorado possui o ataque mais positivo desta Copa do Brasil, com 19 gols em 11 partidas. Já o Grêmio chegou ao mata-mata com a melhor campanha da Libertadores, o que lhes deu a vantagem de decidir esse confronto – e uma eventual final – no Estádio Olímpico.

Timão e Raposa desfrutam, sem dúvida, grande vantagem. Que Tricolor e Colorado podem reverter perfeitamente, dado às qualificações de seus elencos. Se Porto Alegre fará jus ao nome, não se sabe. Contudo, a capital do futebol brasileiro vai tremer com dois grandes jogos. E apesar de eventuais burradas daqui ou acolá, que sejam grandes pelejas, como as que o Rio Grande do Sul já se acostumou há tempos. Decididas dentro das quatro linhas.