16.12.10

O retorno do Rey

Texto originalmente redigido para a seção "Meninos ganham campeonatos", do Olheiros

Como na Sul-Americana de 2010, Independiente mesclou experiência com nova geração para conquistar a América e o Mundo em 1984

Campeão da edição 2010 da Copa Sul-Americana, o Independiente claramente se inspirou no glorioso passado para retomar as conquistas que o fizeram temido na América do Sul. O Rey de Copas é o maior vencedor da história da Copa Libertadores, heptacampeão do torneio (1964, 1965, 1972, 1973, 1974, 1975 e 1984).

A atual geração, que conduziu o Rojo a um título continental após 15 anos – desde a conquista da Recopa de 1995 –, possui alguns jovens oriundos da base, como os zagueiros Velásquez e Galeano, os volantes Godoy e Fredes e o meia Patrício "Pato" Rodríguez. Da mesma forma, a equipe que conquistou a última Libertadores do clube e o Mundial em 1984 também tinha diversos jovens em seu elenco, como o zagueiro Nestor Clausen e o meia Jorge Burruchaga. – campeões do mundo com a seleção em 1986 –, além do lateral Carlos Enrique e do atacante José Percudani.

Regidos pelo experiente Ricardo Bochini, também vencedor da Copa do Mundo de 1986 e cria da própria “cantera del diablo”, o time fluiu. O sangue novo foi primordial para fortalecer a boa equipe, que conquistou sua última grande glória naquele 1984, um ano após o fim da repressiva ditadura militar na Argentina.

Campeonato dos sonhos

A equipe comandada pelo técnico José Omar “Pato” Pastoriza amargava jejum de quase seis anos sem um título nacional e oito sem um título continental em 1983, ano em que ele chegou ao comando do clube de Avellaneda. No caminho para o fim desta incômoda escrita estava o arquirrival Racing Club, adversário da última rodada do Argentino, que estava ferido por um rebaixamento à segunda divisão decretada na partida anterior. O Independiente, líder com um ponto de vantagem sobre San Lorenzo e Ferro Carril Oeste, precisava vencer em casa para ser campeão e esfregar a taça na cara dos rivais.

E a “partida perfeita” se concretizou em 22 de dezembro de 1983. Os Rojos venceram por 2 a 0, gols de Giusti e Trossero, evitaram de perder o título do Campeonato Metropolitano (equivalente ao atual Torneio Apertura) e foram campeões no ano em que o maior rival foi rebaixado pela primeira vez. “Nunca vi um clima tão especial. Era festa numa metade de Avellaneda e funeral para a outra”, resumiu Pastoriza à época.

Trossero (à dir.) marca e o já rebaixado Racing não impede a festa do título dos arquirrivais

Mescla campeã

Boa parte da equipe campeã nacional foi mantida para a Libertadores de 1984, na qual as equipes argentinas encarou as paraguaias na primeira fase – antes, a Conmebol organizava o confronto das chaves pelos países que as equipes representavam. Com cinco grupos, apenas os campeões se classificavam às semifinais, que com a entrada do campeão do ano anterior (no caso, o Grêmio), formavam duas chaves, onde o vencedor de cada uma delas faria a grande final.

Assim, entrou em campo a mescla vencedora. Aquela equipe tinha em Ricardo Bochini, 30 anos, seu grande referencial técnico e icônico. Cria do clube e eleito como um dos melhores jogadores argentinos da história, “El Bocha” havia feito parte do time tetracampeão da América, entre 1972 e 1975 – inclusive, sendo companheiro de elenco do então meio-campista Pastoriza na conquista de 1972 – e multicampeão nacional. Com 638 jogos, detém o recorde de atuações pelo clube, única camisa que defendeu em sua carreira, de quase 20 anos. Dos seus pés, saiam passes preciosos para o ataque formado pelo jovem Percudani, 19, e o experiente Alejandro Barberón.

Bochini era auxiliado por Jorge Burruchaga, meia com vocação de goleador. Revelado no Arsenal de Sarandí, tinha apenas 22 anos e chegou à Avellaneda em 1982. Na zaga, mais duas revelações: Clausen e Enrique entraram nas laterais naquela temporada, dando mais vitalidade à defesa de 1984. Com os ingredientes misturados neste caldeirão, Pastoriza construiu uma equipe primava pelo jogo ofensivo e de toques precisos. Mas que não se envergonhava de ficar retrancada atrás, caso a situação assim pedisse. A dosagem perfeita para se jogar um torneio tão peculiar como é a Libertadores.

Num grupo composto por Estudiantes, Olímpia e Sportivo Luqueño, o Independiente só se classificou na última rodada, ao vencer o Olímpia, em Avellaneda, por 3 a 2. Porém, no triangular das semifinais, os Rojos utilizaram o famoso jogo copeiro, tão característico ao futebol argentino: empatar fora e vencer em casa. Por isso, classificou-se sem dificuldades frente ao Nacional de Montevidéu e à Universidad Católica. Porém, a grande final era um verdadeiro osso duro: o atual campeão Grêmio, que tinha em suas fileiras jogadores como o zagueiro uruguaio Hugo de León e o atacante Renato Gaúcho, polêmico e goleador.

Nas duas finais, jogos parelhos. Contudo, brilhou a estrela de Burruchaga, que no primeiro jogo marcou o gol da vitória em pleno Estádio Olímpico – dois anos depois, o fiel escudeiro de Maradona mostraria novamente sua vocação de herói, ao marcar o gol do título mundial para a Argentina, diante da Alemanha Ocidental. Na partida de volta, o Rojo segurou o placar sem gols e garantiu sua supremacia continental.

Vingança contra os ingleses

A coroação da equipe de Pastoriza, Bochini e compania viria em Tóquio, na final do Mundial Interclubes, diante do Liverpool. O confronto contra os Reds acabou transcendendo as quatro linhas. Para o povo argentino em geral, a cicatriz da derrota para a Inglaterra na Guerra das Malvinas, dois anos e meio antes, estava aberta. E aquela partida era a primeira entre equipes argentinas e inglesas após o conflito. “Pela rua, nos paravam e quase nos exigiam que ganhássemos aquela partida. Se tornou uma vingança. Era impossível que aquilo não nos influenciasse. Por isso, trabalhamos para dominar este sentimento”, analisou Carlos Goyén, goleiro uruguaio campeão argentino, sul-americano e mundial daquela equipe.

O jogo foi tenso, amarrado e sofrido para o Rojo, que saiu em vantagem logo no início da partida, com Percudani. Dono de quatro das últimas oito taças da Champions League, o Liverpool pressionou muito. Mas a raça argentina falou mais alto e o Estádio Nacional de Tóquio foi palco da doce vingança dos hermanos, personificada na camisa vermelha do Independiente. Ao menos no campo de futebol, a batalha pendeu para o outro lado.

A conquista em terras japonesas marcou novamente o auge do Rey de Copas no futebol argentino. Terceiro maior vencedor de títulos nacionais (14 conquistas, atrás de River Plate e Boca Juniors), a parte vermelha de Avellaneda conquistou apenas mais três argentinos, duas Supercopas e uma Recopa contabilizando os últimos 26 anos. A última conquista de expressão foi o Apertura de 2002.

Por isso, o elenco campeão da Copa Sul-Americana trouxe de volta um clima de nostalgia à Avellaneda. Jogadores rodados ou experientes como o zagueiro Tuzzio, o ala Mareque e o volante Battión deram ao Rojo um novo título continental – mesmo secundário dentro da América do Sul –, ao lado de jovens criados na “cantera del diablo”, casos de Velásquez, Galeano, Godoy, Fredes e Rodríguez. Uma bela e justa homenagem aos precursores da geração de 1984.

Ficha Técnica

Clube: Independiente
Treinador: José Omar Pastoriza
Competição: Copa Libertadores/Mundial Interclubes
Ano: 1984
Escalação: Goyén; Clausen, Villaverde, Trossero e Carlos Enrique; Giusti, Marangoni, Bochini e Burruchaga, Percudani e Barberón

2 comentários:

Luís Felipe Barreiros disse...

TEXTO SENSACIONAL! De verdade, muito bem escrito e organizado.

Abração e tem entrevista exclusiva no blog com o editor de futebol internacional do globoesporte.com,

Luís - @luisfbarreiros
porforadogramado.blogspot.com

Lucizano disse...

Boa André, é importante lembrar que o time campeão da Libertadores havia conquistado o nacional em 1983, mas antes disso, vinha de dois vices seguidos, perdidos para o Pincha.

Abs

http://blogdolucizano.blogspot.com/