9.6.09

Galácticos II: o retorno

O final da novela – que parecia mais um capítulo de Chaves, já que todos sabiam do final – entre Milan/Real/Kaká chegou com o anúncio da segunda maior transação da história do futebol: 65 milhões de euros. Sonho antigo da diretoria merengue, Kaká é o primeiro – e principal – reforço desta nova era Florentino Pérez. O mesmo Pérez que formou a partir de 2001, na sua gestão anterior, um time com nomes como Ronaldo, Figo, Beckham e Zidane, que deram a alcunha de galácticos ao time merengue. E com o recente sucesso e badalação do rival Barcelona após a conquista inquestionável da Europa através do triplete, o presidente do Real não deve medir esforços para trazer outros jogadores world-class ao time. O recém contratado Manuel Pellegrini terá em mãos algumas das melhores peças para devolver o Real Madrid ao topo, algo que não acontece desde 2001/02, após o voleio espetacular de Zidane na final daquela Champions frente ao Bayer Leverkusen. De lá pra cá, em um período de oito anos, dez treinadores diferentes passaram pelo Santiago Bernabéu. Considerando que o Real teve apenas 41 treinadores em sua história de 107 anos, é muito.

Mesmo com os recentes fracassos a nível continental – eliminado das últimas cinco edições da Champions League nas oitavas – o Real Madrid ainda é a grande “Meca” do futebol moderno, por todo o seu histórico de conquistas. E Kaká deixou bem claro em suas declarações que só aceitou a proposta merengue por conta de toda essa “aura” que o clube ainda possui: “A principio, minha idéia era ficar no clube, como sempre falei. Quero deixar claro que não foi uma escolha econômica, senão poderia ter feito outra escolha. Se um dia eu tivesse que sair gostaria de jogar no Real. Se por algum motivo isso tivesse que acontecer, como agora, eu gostaria de jogar no Real.”, declarou Kaká durante a coletiva do anúncio oficial. Mesmo sem definir o número que utilizará durante a temporada, o Real faz algo que sabe fazer com maestria: explorar a imagem do craque brasileiro, vendendo camisas oficiais do novo reforço em seu site oficial. Kaká chega ao Bernabéu como o oitavo “Bola de Ouro” e o 21º brasileiro a defender a mítica camisa merengue.

Sem alternativa por conta da própria incompetência, o Milan não titubeou em vender Kaká. E mesmo sem seu principal jogador dos últimos anos, não terá mais porque adiar a renovação da qual seu elenco tanto necessita, a qual já começou com a aposta em Leonardo. E como bem abordou o colega Filipe Araújo em seu blog Gambetas, Kaká e Real Madrid desejam recuperar os louros de glória de outrora: com 27 anos e no auge da maturidade e técnica, Kaká quer voltar a ser o melhor do mundo, enquanto o Real deseja novamente os holofotes por conta das glórias dentro de campo, não apenas pelos feitos do passado. Kaká já provou que é o atleta perfeito para conduzir os merengues até lá, pois além de toda a técnica que possui, exerce uma liderança natural, como acontecia no Milan e na Seleção Brasileira. E o Real Madrid é o time ideal para colocar Kaká novamente na rota de melhor do mundo.

7.6.09

Sobrevida bugrina

Conforme postado neste espaço há dois meses, o Guarani atingia o fundo do poço dentro de campo: rebaixado vergonhosamente da elite paulista após uma campanha pífia. Afundado em dívidas, abalado pelo rebaixamento, de técnico novo – Vadão assumiu pouco antes do início da Série B – e praticamente com a contratação de um elenco inteiro - 19 jogadores chegaram após o Paulistão – quem imaginaria um Guarani líder da Série B após cinco rodadas, com cinco pontos de vantagem sobre o segundo colocado e com 100% de aproveitamento? Coisas que só o universo futebol explica.

A vitória arrancada no Orlando Scarpelli frente ao Figueirense
mostrou que o Bugre mudou totalmente seu espírito e atitude. Méritos totais para Vadão, que fez o Bugre atingir a segunda maior marca de vitórias consecutivas da história recente da Série B. XV de Piracicaba, em 1998 e Corinthians, em 2008, conseguiram sete vitórias consecutivas no início do certame. O Guarani não vencia cinco partidas seguidas desde 1996 e se vencer o Vasco pela sexta rodada atuando em casa, igualará uma sequência que não é alcançada desde 1984, na época dos áureos tempos da equipe.

Dentre os reforços que deram uma cara nova ao Bugre, estão o zagueiro Bruno Aguiar – autor do gol da vitória contra o Figueirense – o rodado meia Valter Minhoca – ex- Cruzeiro, Flamengo e Ipatinga - e o atacante Caíque, artilheiro do time na Série B com três gols. Mesmo com o impressionante começo e ressurgimento, fica difícil imaginar um Guarani, vindo de uma situação que veio, consiga um acesso para a elite do futebol brasileiro, da qual saiu em 2004. Mas em uma Série B que pinta mais equilibrada que a de 2008 e onde o Vasco, ainda o grande favorito ao acesso e ao título, ainda não embalou e pegou o “espírito” da competição, necessário para embalar, tudo pode acontecer. Ou alguém imaginaria um Guarani numa fase tão favorável como essa antes do início da segundona, após o anúncio da venda do Brinco de Ouro, enterro simbólico e montagem de um elenco inteiro?

5.6.09

6+5: o cálculo complexo

Após a definição das cidades-sede para a Copa de 2014 no Brasil, uma das pautas mais esperadas do Congresso da FIFA, realizado em Nassau, foi abordada novamente: a limitação do número de jogadores estrangeiros utilizados em campo pelos clubes. Conhecida como a regra do 6+5 – seis jogadores nativos do país de origem do clube e cinco estrangeiros -, a regra causa polêmica. Principal afetada pela nova resolução, a UEFA já se levanta contra a proposta. Mesmo com Michel Platini não sendo totalmente contra a idéia, a pressão da maioria dos clubes europeus – principalmente médios e grandes – faz com que o francês se torne da idéia, fortemente defendida pela FIFA na figura de Sepp Blatter. E a aliança existente entre os dois cartolas pode afundar se Blatter continuar insistindo no 6+5, pois segundo o presidente da UEFA a resolução afetará um dos principais pilares da União Européia: a livre circulação entre os países-membros, no que diz respeito a prestação de serviços e leis trabalhistas. “Para ter um calendário, temos de saber se é legal ou ilegal. Não é sobre a Fifa ou sobre o futebol de uma forma geral. É sobre as leis da União Europeia”, afirmou Platini.

Blatter se ampara no Tratado de Lisboa - ratificado pela UE em outubro de 2007 e que espera o aval de todos os 27 países-membros para entrar em vigor em sua plenitude – e assim que as novas leis entrarem em vigor, serão convocadas eleições entre os 208 confederados da entidade máxima do futebol. Entre as medidas do novo tratado – que substitui a Constituição Européia de 2004 – a UE passará a se utilizar de poder jurídico unificado, outro grande avanço do bloco após a utilização de uma moeda unificada, o Euro. O presidente da FIFA deseja que o futebol não seja tratado exatamente como outros tipos de ocupação, devido as particularidades e interesses individuais e coletivos que o esporte bretão envolve. “Temos de perguntar adeptos em todo o mundo: o senhor é a favor de uma forte equipa nacional? É a favor da equipa nacional com os jogadores atuando no campeonato do seu país? É a favor de jovens jogadores em formação e, em seguida, obter acesso para a equipe principal? Deseja que jogadores que vêm da base do clube assinem seu primeiro contato por ele? Se você responder "sim" a todas estas perguntas, então você gosta de mim e é a favor da regra do 6+5”, crava Blatter, em entrevista ao site da FIFA. Equipes como a Inter - sete italianos dentre 32 atletas no elenco - e o Arsenal - três ingleses entre 32 atletas - são grandes expoentes do mosaico de nacionalidades que se tornaram alguns clubes europeus. Na contramão dessa tendência e mostrando que é possível investir na base e ser forte, o Barcelona entrou em campo na final da Champions League de 2008/09 com seis espanhóis, todos revelados em suas categorias de base.

O fortalecimento e a identidade da relação clubes-seleção talvez seja o ponto mais positivo dessa lei. Como resultado, teriamos campeonatos nacionais e continentais mais equiparados, os clubes passariam a investir mais na formação de jogadores nativos do que na aquisição de jogadores consagrados por valores estratosféricos. Com mais jogadores na vitrine, a seleção nacional correspondente ganharia mais opções de jogadores e elas poderiam se tornar mais fortes. Além do 6+5, Blatter quer dificultar a regra para a dupla naturalização. Atualmente, dois anos são suficientes para que o jogador obtenha o benefício e o presidente da FIFA que aumentar o prazo para cinco anos.

Medidas louváveis e que beneficiariam também os continentes formadores de atletas, como as Américas e a África, mas que contarão com fortes entraves da bilionária indústria do futebol, personificada em patrocinadores, empresários de atletas e investidores-presidentes de clubes, como Abramovitch no Chelsea, Berlusconi no Milan e diversos mecenas de origem árabe que seguem adquirindo clubes europeus. Resta saber se a FIFA e Blatter conseguirão atravessar toda essa gama de interesses para a implemetação da nova lei ou se eles acabarão sucumbindo diante da politicagem e da regra de boa-vizinhança existente no futebol.

3.6.09

Aposta na renovação

Depois de quase oito anos à frente do Milan, Carlo Ancelotti, enfim, deixa o comando do Milan. Mesmo reconhecendo sua trajetória de sucesso pelo rossoneri – duas Champions League, um scudetto, uma Copa da Itália, duas Supercopas da UEFA e um Mundial de Clubes da FIFA – Ancelotti já vinha tendo seus métodos contestados há algum tempo. E com a discreta participação do Milan nas últimas duas temporadas – quinto no Calcio 2007/08 e vice em 2008/09 – o respaldo dado ao seu trabalho acabou e o técnico italiano terá novo desafio no instável Chelsea.

A escolha de Leonardo como novo técnico do Milan não deixou de ser uma pitada de ousadia. Apesar de conhecer bem o elenco e já possuir bom trânsito entre os jogadores e Silvio Berlusconi, a aposta no brasileiro não deixa de ter inspiração no ótimo trabalho de Guardiola à frente do Barcelona: triplete europeu do ex-jogador blaugrana em seu primeiro desafio como técnico de futebol. Além disso, a aposta em Leonardo foi feita mesmo com bons nomes disponíveis no mercado europeu, tais como Felipão, Rijkaard, Mancini, Juande Ramos e Klinsmann, entre outros.

Na coletiva de sua apresentação oficial, entre outras coisas, exaltou o futebol ofensivo e bem jogado, preceitos que tentará implantar no Milan: “Eu me inspiro no jogo do Brasil de Telê Santana. Admiro muito esse time de 1982, rápido e com jogadores que não tinham funções fixas e com dois laterais muito ofensivos”, afirmou o agora treinador Leonardo. Mas a tarefa é árdua. O envelhecido elenco rossoneri clama há tempos por uma renovação, principalmente na parte defensiva. A aposentadoria de Maldini deve abrir espaço para uma limpa no setor, principalmente com o aproveitamento de Thiago Silva. Outros desafios de Léo serão a recuperação do futebol de Ronaldinho, relegado ao banco durante maior parte desta temporada que acabou, e a reposição da iminente saída de Kaká ao Real Madrid, praticamente cravada pela imprensa européia. Além da aposta em Thiago Silva e Ronaldinho, Leonardo certamente se utilizará do talento de Alexandre Pato, um dos poucos acertos de Ancelotti no Milan dos últimos anos.

Enquanto isso, no Santiago Bernabéu, a aposta é em Manuel Pellegrini. O técnico chileno, com passagens pelo futebol argentino e responsável pelo upgrade do então pequenino Villarreal no cenário espanhol e europeu em um período de quatro anos, chega a um Real Madrid que promete retomar a era galáctica, com o retorno de Florentino Pérez à presidência merengue. Kaká deve ser apenas o primeiro reforço de um clube que parece não medir esforços para acabar com o "ostracismo" merengue e a adoração ao futebol e elenco do arqui-rival Barcelona. Resta saber como o Inginero responderá ao desafio de comandar uma equipe de nível mundial pela primeira vez, tarefa na qual os promissores Bernd Schüster e Juande Ramos não conseguiram realizar a frente de um gigante como o Real Madrid.

1.6.09

Que fim deram as zebras?

O final da temporada 2008/09 chegou, abrindo a temporada para balanços e especulações. Nos principais campeonatos europeus, algumas zebras ameaçaram galopar nos gramados, mas acabaram por não se concretizar e algumas até mesmo a voltar ao prognóstico de pré-temporada: a zona do “ostracismo” ou a briga pelo rebaixamento.

Caçula desta Bundesliga, o Hoffenheim pode ser considerado um dos azarões que tiveram mais sucesso. Ainda assim, fica uma ponta de decepção, já que o Hoffe chegou a sonhar alto com a conquista simbólica do título de campeão de inverno do certame alemão. Em um primeiro turno fabuloso, peitou os grandes do futebol alemão e virou o turno na frente do Bayern, no saldo de gols. Após um turno inteiro sem perder em jogos dentro de casa, a coisa desandou, principalmente pela falta de peças de reposição dentro do elenco e a contusão grave de seu principal jogador – o bósnio Vedad Ibisevic, artilheiro da Bundesliga àquela altura com 18 tentos. Apenas quatro vitórias no returno e chegando a amargar uma série de sete jogos sem vitória, o Hoffenheim não só viu a chance do título ficar distante, mas acabou o campeonato na sétima colocação, ficando de fora de qualquer competição européia em 2009/10. Mesmo recém-promovido, acabou ficando uma pontinha de decepção ao Hoffe. Enquanto isso no segundo turno, outra zebra arrancou rumo ao título da Bundesliga, comandados por Dzeko, Grafite e Misimovic: o Wolfsburg.

Outro que surpreendeu, mas por menos tempo em relação ao Hoffenheim e Wolfsburg foi o Hull City, também caçula na Premier League. O time do brasileiro Geovanni chegou a encostar na liderança, à época disputada por Chelsea e Liverpool com um time limitadíssimo, como foi comprovado após a boa fase dos Tigers, que durou até a nona rodada. Duas séries de 11 derrotas derrubaram o time, que terminou o campeonato apenas uma posição acima da zona de rebaixamento, se salvando na última rodada graças a derrocada do tradicional Newcastle, rebaixado para a segunda divisão. Outro que chegou a surpreender e a sonhar com uma vaga na Champions League foi o Aston Villa. No entanto, uma série de nove jogos sem vitória podaram os Villains na briga contra o Arsenal, que acabou ficando com a última vaga inglesa para a competição européia. O Villa acabou se contentando com uma vaga na Liga Europa após a sexta colocação na tabela.

A hegemonia do trio de ferro no Campeonato Português teve um estranho no ninho no início do campeonato: o Leixões. A equipe da cidade de Matosinhos ficou até a 11ª rodada entre os líderes, mas a carruagem acabou virando abóbora. Após quatro rodadas na liderança, o Leixões amargou uma brusca queda e a exemplo do que aconteceu com o Hoffenheim na Alemanha, acabou nem se classificando para qualquer competição continental em 2009/10.

E se o tradicionalismo acabou imperando na Europa com o tetracampeonato da Inter - onde o Genoa fez campanha surpreendente, quase conseguindo uma vaga na Champions - e do Porto e o tricampeonato do Manchester United, duas grandes hegemonias foram quebradas na Europa: o Bordeaux interrompeu a impressionante série de sete campeonatos consecutivos do Lyon e sagrou-se campeão francês pela primeira vez após 10 anos de jejum. E na Holanda, o AZ Alkmaar do técnico Louis Van Gaal – já contratado pelo Bayern – quebrou uma hegemonia de nove anos de conquistas da tradicional dupla PSV-Ajax na Eredivisie. Além do surpreendente campeonato – apenas o segundo de sua história – a Holanda ainda viu com espanto o Twente se classificar para a pré-Champions por conta do vice-campeonato. O até então tetracampeão PSV (4º) e o Ajax (3º) terão de se contentar com a disputa da Liga Europa.