31.3.11

Enésima chance

Sem pompas, Adriano foi apresentado nesta quinta-feira ao Corinthians. Que aliás, fez bem ao não rivalizar com o São Paulo, apresentando o atacante no mesmo dia que Luís Fabiano (na última terça), altamente identificado com o São Paulo e uma aposta cara feita pelo clube do Morumbi, que pagou a bagatela de 7,6 milhões de euros no jogador de 30 anos, que apesar do histórico de bad boy do passado, é uma certeza para o futuro do clube. Enquanto a festa do Fabuloso deu o tom da apoteótica apresentação testemunhada por 45 mil são-paulinos, apenas um batalhão de uma centena de repórteres "recepcionou" o novo reforço do Timão.

Longe da unanimidade entre os próprios corinthianos, as perguntas de cunho pessoal tomaram boa parte da apresentação, fechada à torcida. E o Imperador deu algumas respostas duras, falou do apego à família e do velho clichê do recomeço, reclamando da “perseguição” da imprensa. Que tem muitos momentos de exagero, é verdade. Contudo, muitas vezes, é provocada pelas suas próprias atitudes, principalmente na transição Inter-Flamengo-Roma.

“O que mudou desde que eu sai daqui? Agora estou muito mais maduro, sou um outro Adriano, e vim à Itália para provar isso”, disse o brasileiro á época de sua apresentação na Roma, em 9 de junho. As contusões o atrapalharam, é verdade, mas Adriano deixou a cidade eterna tendo feito apenas oito jogos, nenhum gol e com intermináveis novelas de retorno à capital italiana desde o Rio de Janeiro, como no ano novo e em fevereiro deste ano (estava no país, recém-operado do ombro direito). Isso depois de dizer que tinha um “débito com o futebol italiano” – pela maneira como forçou sua saída da Inter ao Flamengo, em 2009.

Depois das passagens por Flamengo e Roma, o possível rendimento do atacante no Corinthians é uma incógnita. Primordial no hexacampeonato brasileiro do Fla – ao lado do veterano meia sérvio Petkovic –, Adriano tinha escancaradas regalias no clube carioca, do qual é torcedor declarado e para onde só não voltou por “conflito de filosofia”, outro nome para uma possível chance de desagregar o elenco comandado pelo egocêntrico Vanderlei Luxemburgo, que tem Ronaldinho como estrela maior. Com cláusulas de rescisão fixadas no contrato (segundo o presidente do Timão, Andrés Sanchez, a pedido do próprio atacante), acionadas em caso de indisciplina, não parece que o Imperador desfrutará das mesmas facilidades da cidade maravilhosa no Parque São Jorge.

O clube, que ainda está sob a sombra de eliminação precoce da Libertadores 2011, já deu mostras de sua (por vezes, exacerbada e irracional) cobrança, no episódio de apedrejamento do ônibus, no início deste ano. Por isso, Adriano terá de estar tinindo, quando se recuperar da lesão do ombro. Além disso, terá que perder muito peso e entrar em forma rapidamente, para que não se torne outro dos alvos de torcedores e imprensa, como aconteceu na segunda metade da passagem de Ronaldo pelo Corinthians.

Em se tratando de futebol brasileiro e com 29 anos, o Imperador tem bola pata gastar, é inegável. Estará perto da sua amada Vila Cruzeiro – uma ponte aérea de distância. Resta saber se, nesse novíssimo recomeço no futebol brasileiro, ele fará por merecer a vaga no inchado ataque do time comandado por Tite (que já possui Liedson, Dentinho, Jorge Henrique, Willian e Edno). Um novo Adriano ou um “novo Ronaldo”?

30.3.11

Elite do futebol ou futebol da elite?

Enquanto metade dos clubes do antigo Clube dos 13 (Santos, Corinthians, Vasco, Grêmio, Cruzeiro, Goiás, Coritiba, Sport e Vitória e Bahia) já anunciou acerto individual com a Rede Globo para a transmissão do Brasileirão nos próximos anos – contrariando o acerto coletivo da entidade com a Rede TV –, a Espanha parece caminhar para outro nível do acerto individual de cotas (e, porque não, de uma possibilidade futura por aqui): a maioria dos clubes da liga espanhola (Liga BBVA) exige nova negociação dos direitos, que envolve maior cota oriunda de casas de apostas e o fim de uma lei federal que estabelece a transmissão de uma partida na TV aberta por rodada. O grupo alega que está perdendo dinheiro, já que poderia negociar essas partidas com as redes de TV fechada.

Para isso, a LFP (Liga de Fútbol Profesional) queria fazer uma paralisação do torneio neste final de semana (nos dias 2 e 3 de abril, em período convenientemente chamado de “folga” pelo presidente da entidade, o advogado José Luis Astiazarán). Contrários a resolução e aos termos estabelecidos, Villarreal, Sevilla, Athletic Bilbao, Zaragoza, Espanyol e Real Sociedad entraram na Justiça espanhola e conseguiram impedir a paralisação, garantindo a realização dos jogos. O irônico é que a própria LFP foi ferrenha adversária quando a associação dos jogadores espanhóis (AFE) pediu o adiamento dos jogos do último dia 2 de janeiro, um domingo, na esteira de comemoração do Ano Novo. Aquela jornada foi mantida, com Astiazarán dizendo em “manter o calendário acertado desde junho de 2010”.

Como levantou Erich Beting em seu blog Negócios do Esporte, a Espanha é a única das consideradas ligas de ponta da Europa (ao lado de Inglaterra, Itália, Alemanha e França) em que os clubes negociam os direitos de televisão individualmente. Dos 550 milhões de euros negociados com os 20 clubes até 2015, Real Madrid e Barcelona abocanham 300 milhões, 54,54% do valor total. A discrepância econômica acaba prejudicando a parte técnica. Com menos dinheiro para investir em infraestrutura e reforços, o duo de rivais está muito distante das outras agremiações. Em 2010/11, até a 29ª rodada, O Barcelona liderava o torneio com 78 pontos, cinco de vantagem sobre o Real e 24 diante do terceiro e quarto lugares, Valência e Villarreal (54). O Espanyol, rival catalão do Barcelona, é o quinto, com apenas 43 pontos. Em 2009/10, o Barça foi bicampeão espanhol com 28 pontos sobre o terceiro lugar. Em 2008/09, a vantagem culé era de 17 pontos (em ambos, o Real foi vice).

Com o país à beira de um recesso econômico (segundo a Folha de S.Paulo, 20% da população economicamente ativa ficará sem emprego) e com eleições regionais marcadas para o próximo dia 22 de maio, parece difícil o governo e a LFP costurarem tal acordo, que só deixaria como opção de transmissão para a TV aberta os jogos da Copa do Rei (torneio secundário no país) e as partidas de Champions League e Europa League, subsidiados pela Uefa, acentuando a elitização nas transmissões do futebol. Na contramão das ligas mais poderosas, que lucram com campeonatos mais técnicos e montantes maiores aos clubes pagos pelos direitos de arena (somente a Ligue 1 francesa recebe menos que a Espanha) e até mesmo das seleções europeias, que outorgaram à Uefa a negociação coletiva das partidas da Euro-2016 e das Eliminatórias do continente para a Copa de 2018, com o objetivo de captar mais dinheiro para as federações nacionais.

Como postado aqui, a Argentina radicalizou “ao contrário”, estatizando todas as transmissões esportivas (já era assim com o futebol), o que favorece aos cidadãos, mas pode ser um precedente perigoso nas mãos do governo Cristina Kirchner, no sentido de controle dos meios. E a situação do futebol espanhol, que precisa se reformular quanto aos direitos de TV, pode servir de alerta ao Brasil, num futuro próximo, já que os clubes caminham para fechar acordos individuais. Em um Brasileirão, com todos os seus defeitos de gestão, que prima pelo grande equilíbrio entre os grandes clubes, a soma de má gestão e maus resultados em campo pode causar um fenômeno semelhante ao do país ibérico (mesmo com as realidades distinta entre os clubes), que é tão apaixonado ao futebol quanto nós somos por aqui.

28.3.11

Rogério Ceni centenário!


Ele é goleiro, mas neste domingo colocou mais uma vez seu nome na história do futebol mundial ao marcar seu centésimo gol na carreira. Amado e idolatrado pelos são-paulinos, odiado por muitos, admirado e respeitado por tantos outros, Rogério Ceni marcou contra o rival Corinthians, de falta, seu gol número 100, todos com a camisa do São Paulo.

E para chegar a essa marca, foram necessários 14 anos de treinamentos e cobranças, uma vez que tudo começou num duelo pelo mesmo Campeonato Paulista, contra o União São João de Araras, no dia 15 de fevereiro de 1997. De lá para cá, foram mais gols no Estadual, Copa do Brasil, Brasileiro, Libertadores e Mundial, entre outros.

Conquista mais do que merecida para um profissional dedicado, sempre em busca da perfeição, obcecado pela vitória do seu time. Nesse caminho, conquistou quase todos os títulos possíveis, certamente os mais importantes: Paulista, Brasileiro, Libertadores e Mundial. Apesar de reserva, tem também a medalha do pentacampeonato com a Seleção de 2002. A grande lacuna, muito por causa da genialidade dos cartolas que mandam no futebol nacional, fica por conta da Copa do Brasil. Competição que o São Paulo voltou a disputar nesta temporada.

Com a marca, Rogério escreve com mais força seu nome como o maior ídolo e jogador da história do São Paulo, apesar do próprio goleiro negar estar em tal patamar, citando nomes como Raí e Pedro Rocha como exemplos. Difícil aceitar, quando um deles coloca o "ídolo" Camisa 01 como maior de todos os tempos do clube.

E, como já ficou registrado em sua personalidade forte e vencedora, ao ser questionado sobre o que vem agora, depois de tantos títulos e uma marca que dificilmente será um dia batida por outro goleiro, o arqueiro simplesmente repondeu: o próximo jogo. Quer jogar e vencer, parece que cada vez mais.

Veja todos os 100 gols marcados por Rogério Ceni
Confira as estatísticas

25.3.11

Mártir por acaso

O homem que desencadeou uma revolução na relação entre clube-jogador vive atualmente com uma pensão de 630 euros, paga pelo serviço social do governo belga. Ex-alcólatra e vivendo a base de antidepressivos, Jean-Marc Bosman ressurgiu na mídia esportiva, em aparições feitas no tablóide britânico The Sun.

Bosman esteve longe de ser um craque dentro das quatro linhas. Revelado pelo Standard Liège, da Bélgica, o meio-campista acabou se transferindo ao rival Racing Club, da mesma cidade, em 1988. Pouco aproveitado e em final de contrato, a agremiação (que detinha o seu passe), propôs a renovação por apenas mais um ano, com redução de mais de 50% de seu salário. Bosman não topou, mas tinha que esperar outro clube comprar seus direitos, mesmo com seu contrato expirado. Após negociar com o Dunkerque, da França, seu antigo clube não topou o valor acertado com os franceses, "prendendo" o atleta e impedindo-o de receber e de trabalhar com seu sustento: o futebol.

A partir de 1990, o jogador entrou na Justiça da União Europeia contra seu ex-clube, em batalha que envolveria as esferas de poder mais influentes do futebol atual, como a Uefa e a Fifa. Após cinco anos e com a carreira praticamente terminada durante o processo, a decisão da UE lhe foi favorável em dezembro de 1995, após cinco anos em que Bosman jogou por ligas menores da França. O "sacrifício" desencadeou uma decisão sem precedentes. A partir dali, qualquer jogador que atuasse em países da União Europeia estaria livre do vínculo com seu contratante após o final do contrato, sem precisar pagar qualquer tipo de compensação. Uma espécie de "Lei Áurea" do futebol, já que ela foi estendida e aperfeiçoada não só no velho continente, mas em todo o planeta bola – por aqui, com a Lei Pelé, de 1998.

O destino de Bosman não é diferente de muitos craques do passado aqui do Brasil. É a mistura dos problemas pessoais com a imprudência financeira, que leva as pessoas à ruína, tal qual aconteceu com o eterno gênio Garrincha, por exemplo. Segundo artigo publicado no "The Sports Blog", do britânico The Guardian, o ex-jogador belga ganhou 750 mil euros das batalhas judiciais, tinha algumas posses e foi agraciado com uma partida beneficiente da FIFPro. Mas, de certa forma, minimiza um pouco o feito desencadeado pela sua ida à Justiça. Mesmo movida por direitos estritamente pessoais, trata-se de um marco.

A Lei Bosman, no entanto, não é a ideal. Com mais poder, mas sem orientação adequada, muitos jogadores são guiados pelos empresários. Os principais prejudicados são, principalmente, os pequenos clubes formadores, pouco amparados pela lei. Ainda assim, uma eventual ajuda a Bosman – seja ela financeira ou em forma de um tratamento – deveria partir tão e somente da própria classe de jogadores, que possui unidade forte na Europa (ao contrário do Brasil). Mesmo com eventuais erros do passado do ex-meia, que acabou com a carreira comprometida por uma causa pessoal. Mas de consequências globais ao futebol moderno.

21.3.11

Bombonera não pulsa

Boca sofre nova derrota em seus domínios: um gol e nenhuma vitória em casa em três jogos deste Clausura

Dono de seis Libertadores (quatro delas, conquistadas entre 2000 e 2007), três mundiais e 23 títulos argentinos, o Boca Juniors está em parafuso – situação recorrente desde a conquista do Clausura de 2008. Há cinco jogos sem marcar e com apenas uma vitória nos seis jogos do torneio, os Xeneizes amargam a antepenúltima colocação deste Clausura, com apenas quatro pontos de 18 possíveis.

Após a boa pré-temporada, a contratação de bons reforços como os meias Walter Erviti (ex-Banfield) e Diego Rivero (ex-San Lorenzo), o Boca começou o campeonato sendo goleado pelo Godoy Cruz, jogo em que perdeu o craque Riquelme, contundido. No último domingo, esperava-se que o retorno do Pibe, contra o modesto e surpreendente Olimpo, marcasse o reencontro do time com as redes e a vitória. Ainda mais atuando em casa, a temível Bombonera. Não para o Aurinegro de Bahía Blanca, que segurou a pressão Xeneize, venceu por 2 a 0 e assumiu a liderança da competição. Contratado na véspera de Natal de 2010, o técnico Júlio César Falcioni já sofre pressão dos torcedores e imprensa.

Além da nova crise, um dado, em especial, mostra o quanto o Boca se tornou frágil. Levantamento feito pelo site do Clarín aponta que, desde que o Boca se despediu precocemente da Libertadores de 2009, eliminado pelo Defensor uruguaio nas oitavas (a partir dali, não voltou ao torneio continental), a mística entre o clube, sua casa e a intimidação dos adversários no caldeirão amarelo e azul não foi mais a mesma. De maio de 2009 até a partida contra o Olimpo, o Boca ganhou menos da metade das 35 partidas que disputou em seus domínios: 15 vitórias, oito empates e 12 derrotas. Neste Clausura foram duas derrotas e um empate sem gols no mítico estádio. É o reflexo de uma equipe, mera sombra de um outrora passado vitorioso, que impressionava os outros clubes sul-americanos.

Como analisou o amigo Vinícius Grissi em seu blog Marcação Cerrada, nem Riquelme resolveu. E com o maior artilheiro de sua história, Martín Palermo, em seca de gols desde dezembro de 2010, o Boca flerta com algo que lhe é pouco familiar em sua história pra lá de centenária: o ostracismo e a condição de mero coadjuvante no futebol argentino.